pesquisa qualitativa versus quant

pesquisa qualitativa versus quant

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Psicologia: Teoria e Pesquisa Mai-Ago 2006, Vol. 2 n. 2, p. 201-210

Pesquisa Qualitativa Versus Pesquisa Quantitativa: Esta É a Questão?1

Hartmut Günther2 Universidade de Brasília

RESUMO– Diante da falta de diálogo entre pesquisadores qualitativos e quantitativos, este artigo adota uma posição “ecumênica”. Argumenta que ambas as abordagens têm suas vantagens, desvantagens, pontos positivos e pontos negativos, considerando que o método escolhido deve se adequar à pergunta de uma determinada pesquisa. O trabalho apresenta algumas diferenciações entre a pesquisa qualitativa e a pesquisa quantitativa. Em seguida, aponta a complexidade da pesquisa qualitativa em termos de pressupostos, coleta, transcrição e análise de dados. Discutimos, também, critérios de qualidade para a pesquisa qualitativa. Concluimos com considerações sobre as conseqüências para a pesquisa, ao se optar pela pesquisa qualitativa e/ou pela pesquisa quantitativa.

Palavras-chave:pesquisa qualitativa; pesquisa quantitativa; abordagem multi-metodológica; triangulação.

Qualitative Research Versus Quantitative Research: Is that Really the Question?

ABSTRACT– Given the lack of dialogue between qualitative and quantitative researchers, this article assumes an “ecumenical” position. The text argues that both perspectives present advantages, disadvantages, positive and negative points, considering that the chosen method must be adequate to the question of a certain research. The paper presents some distinctions between qualitative and quantitative research. Next it points out the complexity of qualitative research in terms of its underlying assumptions, as well as data collection, transcription and analysis. Next, quality criteria for qualitative research are considered. The paper closes with a discussion of implications for research when choosing qualitative research and/or quantitative research.

Key words: qualitative research; quantitative research; multi-methodological approach; triangulation.

qualidade dos dados obtidos, às possibilidades da sua obtenção e à maneira de sua utilização e análise4. Considerando que este artigo trata, predominantemente, da pesquisa qualitativa e de dados qualitativos, convém explicitar que a primeira vertente, observação, inclui registros de comportamento e estados subjetivos, como documentos, diários, filmes, gravações, que constituem manifestações humanas observáveis.

O que une os mais diversos métodos e técnicas de pesquisaincluídos nestas três grandes famílias de abordagem é o fato de todos partirem de perguntas essencialmentequalitativas. Por que existe variabilidade verificada? Como lidar com a mesma? Quais as suas implicações? Estas perguntas exigem, por sua vez, respostas qualitativas. A variabilidade existe por essa ou aquela razão. Tem essas ou aquelas implicações. Assim, usando números, ou não, na tentativa de se chegar de uma pergunta qualitativa a uma resposta qualitativa, qual seria a diferença entre a pesquisa qualitativa e a pesquisa quantitativa? Será que se pode argumentar que todo tipo de pesquisa é qualitativa?

Neste artigo, começamos com a apresentação de algumas diferenciações entre a pesquisa qualitativa e a pesquisa

Ao se considerar como objeto de estudo do cientista social a variabilidade do comportamento e dos estados subjetivos, i.é, pensamentos, sentimentos, atitudes, segue-se a pergunta: a que atribuir esta variabilidade? Sob a ótica das ciências sociais empíricas existem três aproximações principais para compreender o comportamento e os estados subjetivos3 : a) observar o comportamento que ocorre naturalmente no âmbito real; b) criar situações artificiais e observar o comportamento diante das tarefas definidas para essas situações; c) perguntar às pessoas sobre o seu comportamento, o que fazem e fizeram e sobre os seus estados subjetivos, o que, por exemplo, pensam e pensaram. Cada uma destas três famílias de métodos de conduzir estudos empíricos – observação de comportamento, experimento esurvey – apresentam vantagens e desvantagens distintas (Kish, 1987). As vantagens e desvantagens são ligadas à

1O trabalho é fruto do Seminário em Psicologia: Metodologia Qualitativa oferecido pelo autor no programa de pós-graduação em psicologia durante o segundo semestre de 2003. O trabalho contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 2Endereço: Departamento de Psicologia Social e do Trabalho, Universidade de Brasília, DF, Brasil 70910-0. E-mail: hartmut@unb.br 3Em Inglês é comum falar em behavior, termo que se refere tanto a comportamento aberto quanto a estados subjetivos, i.é, comportamento coberto. Em português a palavra comportamento tem tradicionalmente um sentido mais restrito.

4Apesar das variações dentro das áreas de conhecimento que utilizam estes métodos de pesquisa, podemos afirmar que cada um tem seu ponto forte. O da observação é o realismo da situação estudada. O do experimento é permitir uma randomização de características das pessoas estudadas e inferências causais. O do levantamento de dados por amostragem ou survey assegura melhor representatividade e permite generalização para uma população mais ampla.

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H. Günther quantitativa. Mostraremos, depois, a complexidade da pesquisa qualitativa em termos de pressupostos, coleta, transcrição e análise de dados. A seguir, apontamos critérios de qualidade para a pesquisa qualitativa. Concluímos o artigo comimplicações para pesquisa, ao se optar para a pesquisa qualitativa e/ou a pesquisa quantitativa.

Diferenciações entre a Pesquisa Qualitativa e a Pesquisa Quantitativa

Ao revisar a literatura sobre a pesquisa qualitativa, o que chama atenção imediata é o fato de que, freqüentemente, a pesquisa qualitativa não está sendo definida por si só, mas em contraponto a pesquisa quantitativa. Apresentaremos alguns destes contrastes e comparações. Para organizar as diferenças e similaridades entre a pesquisa qualitativa e a pesquisa quantitativa, consideramos: a) características da pesquisa qualitativa; b) postura do pesquisador; c) estratégias de coleta de dados; d) estudo de caso; e) papel do sujeito e f) aplicabilidade e uso dos resultados da pesquisa.

Características da pesquisa qualitativa

A clássica afirmação de Dilthey “explicamos a natureza, compreendemos a vida mental” (citado por Hofstätter, 1957, p. 315) pode ser vista como o ponto de partida para as diferenças entre a pesquisa qualitativa e a pesquisa quantitativa. A primazia do “compreender a vida mental” reaparece em todas as discussões sobre a natureza da pesquisa qualitativa. Qual, então, a natureza da pesquisa qualitativa? Quais alguns dos pressupostos desta abordagem?

Flick, von Kardorff e Steinke (2000), apresentam quatro bases teóricas: a) a realidade social é vista como construção e atribuição social de significados; b) a ênfase no caráter processual e na reflexão; c) as condições“objetivas”5 de vida tornam-se relevantes por meio de significados subjetivos; d) o caráter comunicativo da realidade social permite que o refazer do processo de construção das realidades sociais torne-se ponto de partida da pesquisa. Subseqüentemente, estes autores “traduzem” estas bases teóricas em 12 características da pesquisa qualitativa. Mayring (2002), por outro lado, apresenta 13 alicerces da pesquisa qualitativa. Agregando estes dois conjuntos, chegamos a cinco grupos de atributos da pesquisa qualitativa: a) características gerais; b) coleta de dados; c) objeto de estudo; d) interpretação dos resultados; e) generalização.

Características gerais

Seguindo o pensamento de Dilthey citado acima, Flick e cols. (2000) apontam a primazia da compreensão como princípio do conhecimento, que prefere estudar relações complexas ao invés de explicá-las por meio do isolamento de variáveis. Uma segunda característica geral é a construção da realidade. A pesquisa é percebida como um ato subjetivo de construção. Os autores afirmam que a descoberta e a construção de teorias são objetos de estudo desta abordagem. Um quarto aspecto geral da pesquisa qualitativa, conforme estes autores, é que apesar da crescente importância de material visual, a pesquisa qualitativa é uma ciência baseada em textos, ou seja, a coleta de dados produz textos que nas diferentes técnicas analíticas são interpretados hermeneuticamente.

Cabe alertar ao leitor que a primeira destas quatro características pode ser considerada um contraponto artificial.

Dificilmente um pesquisador adjetivado como quantitativo exclui o interesse em compreender as relações complexas. O que tal pesquisador defende é que a maneira de chegar a tal compreensão é por meio de explicações ou compreensões das relações entre variáveis. Segundo, sem dúvida, pode-se conceber as múltiplas atividades que compõem o processo de pesquisa como um ato social de construção de conhecimento. A questão não respondida, porém é, “qual a correspondência entre o conhecimento socialmente construído e a realidade alheia?” – supondo, obviamente, que ela existaindependentemente do pesquisador. A descoberta e a construção de teorias simplesmente constituem o cerne de qualquer ciência. Uma preferência por material textual é uma legitima opção de procedimento, desde que não se contraponha aos princípios elencados no próximo parágrafo.

Coleta de dados

Tanto Mayring (2002) quanto Flick e cols. (2000) consideram o estudo de caso como o ponto de partida ou elemento essencial da pesquisa qualitativa. Em ambas as publicações ressaltam-se o princípio da abertura. Tal postura vai além da formulação de perguntas abertas. Nas palavras de Mayring (p. 28), “nem estruturações teóricas e hipóteses, nem procedimentos metodológicos devem impedir a visão de aspectos essenciais do objeto [de pesquisa]”. Ao mesmo tempo, enfatiza, que “apesar da abertura exigida, os métodos são sujeitos a um controle contínuo (...) Os passos da pesquisa precisam ser explicitados, ser documentados e seguir regras fundamentadas” (p. 29). O princípio da abertura se traduz para Flick e cols. (2000) no fato da pesquisa qualitativa ser caracterizada por um espectro de métodos e técnicas, adaptados ao caso específico, ao invés de um método padronizado único. Ressaltam, assim, que o método deve se adequar ao objeto de estudo.

Pode-se argumentar que não somente o controle metodológico, mas também as demais características mencionadas acima, aplicam-se a qualquer tipo de pesquisa. A questão subjacente que se coloca é a seguinte: a partir de que momento do processo de pesquisa vai-se de um caso específico, deixando-se portas abertas para agregar dados não esperados, não se restringindo a um único método padronizado? Ao conceber o processo de pesquisa como um mosaico que descreve um fenômeno complexo a ser compreendido é fácil entender que as peças individuais representem um espectro de métodos e técnicas, que precisam estar abertas a novas idéias, perguntas e dados. Ao mesmo tempo, a diversidade nas peças deste mosaicoinclui perguntas fechadas e abertas,implica em passos predeterminados e abertos, utiliza procedimentos qualitativos e quantitativos.

Objeto de estudo

Para Mayring (2002) a ênfase na totalidade do indivíduo como objeto de estudo é essencial para a pesquisa qualitativa, i.é, o princípio da Gestalt. Além do mais, a concepção do objeto de estudo qualitativo sempre é visto na sua historicidade, no que diz respeito ao processo desenvolvimental do indivíduo e no contexto dentro do qual o indivíduo se formou. Tanto Mayring quanto Flick e cols. (2000) sublinham que o ponto de partida de um estudo seja centrado num problema, pois a diferenciação entre pesquisa básica e aplicada não é frutífera. Flick e cols. salientam, ainda, que as perspectivas de todos os participantes da pesquisa são relevantes e não apenas a do pesquisador.

A questão do objeto de estudo na pesquisa qualitativa nos leva de volta às controvérsias entre a posição da Gestalt5As aspas são do original.

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Pesquisa Qualitativa Versus Quantitativa e dos experimentalistas. A afirmação “o todo é maior do que a soma das suas partes” não significa que não possa ser conveniente, concentrar-se “apenas” numa parte do processo da pesquisa.

Interpretação dos resultados

Tanto Mayring (2002) quanto Flick e cols. (2000) apontamacontecimentos e conhecimentos cotidianos como elementos da interpretação de dados. Os acontecimentos no âmbito do processo de pesquisa não são desvinculados da vida fora do mesmo. Isto leva, ainda, a contextualidade como fio condutor de qualquer análise em contraste com uma abstração nos resultados para que sejam facilmente generalizáveis. Implica, ainda, num processo de reflexão contínua sobre o seu comportamento enquanto pesquisador e, finalmente, numa interação dinâmica entre este e seu objeto de estudo.

Uma distinção mais acentuada entre a pesquisa qualitativa e a pesquisa quantitativa diz respeito à interação dinâmica entre o pesquisador e o objeto de estudo. No caso da pesquisa quantitativa, dificilmente se escuta o participante após a coleta de dados. Uma inclusão de acontecimentos e conhecimentos cotidianos na interpretação de dados depende, no caso da pesquisa quantitativa, da audiência e do meio de divulgação. Ao mesmo tempo em que um nível maior de abstração pode impedir a inclusão do cotidiano, qualquer passo na direção de uma aplicação de resultados necessariamenteinclui o dia-a-dia. O mesmo se aplica para a questão do contexto. A reflexão contínua, obviamente, não é específica da pesquisa qualitativa; deve acontecer em qualquer pesquisa científica.

Generalização de resultados

A generalização de resultados da pesquisa qualitativa passa por quatro dimensões. Mayring (2002) introduz o conceito da generalização argumentativa. À medida que os achados na pesquisa qualitativa se apóiem em estudo de caso, estes dependem de uma argumentação explícita apontando quais generalizações seriam factíveis para circunstâncias específicas. No caso da pesquisa quantitativa, uma amostra representativa asseguraria a possibilidade de uma generalização dos resultados. Relaciona-se a isto a ênfase noprocesso indutivo, partindo de elementos individuais para chegar a hipóteses e generalizações. Entretanto, este processo deve seguirregras, que não são uniformes, mas específicas a cada circunstância. Desta maneira, é de suma importância que as regras sejam explicitadas para permitir uma eventual generalização. Finalmente, Mayring não exclui a quantificação, mas enfatiza que a função importante da abordagem qualitativa é a de permitir uma quantificação com propósito. Desta maneira, poder-se-ia chegar a generalizações mais consubstanciadas.

Postura pessoal do pesquisador

Uma primeira distinção entre a pesquisa qualitativa e a pesquisa quantitativa refere-se ao fato de que na pesquisa qualitativa há aceitação explícita da influência de crenças e valores sobre a teoria, sobre a escolha de tópicos de pesquisa, sobre o método e sobre a interpretação de resultados. Já na pesquisa quantitativa, crenças e valores pessoais não são consideradas fontes de influência no processo científicas. Será mesmo? Considerando que um tema importante da psicologia social é o estudo de atitudes, crenças e valores, a questão não é se valores influenciam comportamentos e estados subjetivos, inclusive os valores do cientista. O que se coloca é como lidar com esta influência no contexto da pesquisa – seja ela qualitativa ou quantitativa.

Além da influência de valores no processo de pesquisa, há de se constatar um envolvimento emocional do pesquisador com o seu tema de investigação. A aceitação de tal envolvimento caracterizaria a pesquisa qualitativa. Já a intenção de controlá-lo, ou sua negação, caracterizariam a pesquisa quantitativa. Da mesma maneira que os valores fazem parte da vida humana, o estudo das emoções é assunto importante da psicologia clínica e da personalidade, razão pela qual, mais uma vez, volta-se à questão mais relevante: como lidar com esta influência no contexto da pesquisa?

Estratégias de coleta de dados

Uma resposta ao problema de como lidar com os valores e o envolvimento emocional do pesquisador com o seu objeto é por meio do controle das variáveis do estudo. O contraponto feito entre a pesquisa qualitativa e a pesquisa quantitativa é o de estudar um determinado fenômeno no seu contexto natural versus estudá-lo no laboratório. A primeira estratégia – da pesquisa qualitativa – implica em relativa falta de controle de variáveis estranhas ou, ainda, a constatação de que não existem variáveisinterferentes e irrelevantes. Todas as variáveis do contexto são consideradas como importantes. Na segunda estratégia – da pesquisa quantitativa – tenta-se obter um controle máximo sobre o contexto, inclusive produzindo ambientes artificiais com o objetivo de reduzir ou eliminar a interferência de variáveis interferentes e irrelevantes. Entre as variáveisirrelevantes e potencialmenteinterferentes,incluem-se tanto atributos do pesquisador, por exemplo, seus valores, quanto variáveis contextuais ou atributos do objeto de estudo que “não interessam” naquele momento da pesquisa.

Antes de tudo, consideramos essa classificação de variáveis em relevantes e interferentes uma questão estratégica no processo de pesquisa. Em princípio, qualquer variável pode explicar uma parte, mesmo que infinitésima, da variabilidade do fenômeno sob estudo. Entretanto, existem variáveis que por razões teóricos e/ou de experiência prévia são mais promissoras do que outras. Além do mais, por razões práticas, há de se limitar as variáveis estudadas num mesmo tempo a um número manejável, seja em termos de recursos – de tempo e dinheiro – por parte do pesquisador, seja da disponibilidade dos participantes da pesquisa. Desta maneira, limitar o número de variáveis estudadas numa determinada pesquisa não implica que as demais variáveis sejam necessariamente consideradasimprocedentes – uma boa pesquisa sempre está aberta ao surgimento de novas variáveis e a explicações alternativas do cenário considerado noinício da investigação. O fato de se levar em conta mais explicitamente os valores e os demais atributos do pesquisador requer, por parte da pesquisa qualitativa, maior detalhamento dos pressupostos teóricos subjacentes, bem como do contexto da pesquisa. Por outro lado, a estandardização dos procedimentos na pesquisa quantitativa pode indicar avanço no estabelecimento de um maior grau de intersubjetividade entre pesquisadores que usam um determinado procedimento.

Estudo de caso

O chamado paradoxo da psicologia coloca em confronto o estudo aprofundado de um evento individual, objeto de interesse da Psicologia por excelência com a necessidade do estabelecimento de parâmetros para os atributos destes eventos. Por exemplo, médias constituem parâmetros para

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H. Günther descrever eventos individuais, mas, tais parâmetros são ob- tidos somente em estudos que ignoram a individualidade dos eventos. Assim, ao descrever a individualidade de uma pessoa como agradável, está implícita a resposta à pergunta “em termos de que referencial?” Este referencial pode ser qualitativo: “mais agradável do que fulano” ou pode ser quantitativo: “sete pontos numa escala de 0 a 10”. Seja como for, tais parâmetros referenciais somente são obtidos por meio de investigações mais complexas do que de estudos de caso. Observa-se, assim, que abordagens qualitativas, que tendem a serem associadas a estudos de caso, dependem de estudos quantitativos, que visem gerar resultados generalizáveis,i.é, parâmetros. Desta maneira dilui-se a controvérsia entre o estudo de caso, i.é, uma investigação aprofundada de uma instância de algum fenômeno, e o estudo envolvendo um número estatisticamente significativo deinstâncias de um mesmo fenômeno, a partir do qual seria possível generalizar para outras instâncias. Além do mais, num estudo de caso é possível utilizar tanto procedimentos qualitativos quanto quantitativos.

Papel do sujeito

Mencionou-se, acima, a questão do envolvimento emocional e valorativo do pesquisador com a temática do seu estudo. Deve-se indagar, também, sobre o grau de passividade dos participantes de uma pesquisa. Até que ponto os sujeitos de um estudo são envolvidos na concepção, realização e interpretação de resultados de uma pesquisa? A associação feita é de que um participante ativo supõe uma pesquisa qualitativa, já um participante passivo, é “sujeito” de uma pesquisa quantitativa. Embora a pesquisa-ação seja uma abordagem que permite um papel mais ativo do participante, há de se ressaltar que no desenvolvimento original da pesquisa-ação por parte de Lewin (1982), qualquer abordagem – observacional, experimental,survey, qualitativa, quantitativa – poderia ser utilizada, como demonstrado por Sommer e Amick (1984/2003). Voltaremos à questão da pesquisa-ação e pesquisa participante, mais adiante.

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