Coletanea de receitas defensivos naturais

Coletanea de receitas defensivos naturais

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Trabalho apresentado no Encontro do “Terra Viva”, projeto de Cooperação Técnica entre a GTZ (Deutsche Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit) e a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, através da CATI e Instituto Biológico- Estância Demétria em Botucatú, estado de São Paulo, com a participação de profissionais de toda parte do Brasil/agosto-setembro1998- Helcio de Abreu Júnior -Engº Agrº MSc. - Coordenador

Prefácio

Todo alimento produzido de modo sadio, respeitando-se o ambiente, o homem e livre de resíduos tóxicos, equivale ao melhor dos remédios. Baseado no respeito ao ser humano e na mais vital das necessidades que é a alimentação saudável, livre de resíduos tóxicos, foi realizado esta coletânea de receitas visando fornecer alternativas para o controle de parasitas de plantas e animais, tendo como objetivo principal o equilíbrio dos organismos e das suas relações com o meio ambiente. No âmbito do “Terra Viva”, projeto de Cooperação Técnica entre a GTZ (Deutsche Gesellschaft für Technische Zusammenarbeit) e a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, através da CATI e Instituto Biológico, que tem como objetivo reduzir o uso de agrotóxicos e seus riscos ao homem e ao meio ambiente, foi possível encorajar técnicos, agricultores e especialistas em torno desta nova visão de proteção de plantas, onde as medidas naturais e de manejo integrado da cultura estão sendo privilegiadas. Uma coletânea iniciada a partir de publicações científicas e muitas obtidas a partir de experiências práticas de técnicos e agricultores, recebeu colaborações importantíssimas na elaboração da versão final, na qual as correções e novas contribuições se deu no formato de uma oficina participativa, realizada na Estância Demétria em Botucatú, estado de São Paulo, com a participação de profissionais de toda parte do Brasil. É um trabalho em constante evolução, e que pretende colaborar com o agricultor e o técnico no manejo e controle dos parasitas dos cultivos e criações, de maneira consciente e responsável, reduzindo ou até mesmo eliminando o uso de agrotóxicos. Um desafio que deve ser assumido sem medo de acertar e obter sucesso. É um instrumento básico para a produção alimentos promotores da saúde de todos nós, consumidores e seres vivos do planeta.

Helcio de Abreu Júnior -Engº Agrº MSc. - Coordenador

I - Introdução I.1. Práticas de Proteção de Plantas em um contexto Holístico - Ana Maria Primavesi I.2. Produção Animal Sustentável - Marco Antonio Hoffmann I - Informações aos Usuários I - Coletânea de Receitas para Proteção de Plantas e Animais 1 - Ácidos Húmicos 2 - Agave, Piteira ou Sisal (Agave sisalana Perrine) 3 - Alho 1 , Alho 2, Alho 3, Alho 4 (Allium sativum) 4 - Angico (Piptadenia spp.) 5 - Anonas - Guanabara, Graviola, Maria vai ver (Annona reticulata, A. muricata, A. squamosa) 6 - Araucária, Pinheiro do Paraná (Araucaria angustifolia) 7 - Arruda (Ruta graveolens) 8 - Árvore do Paraíso, Sinamomo do Sul (Melia azedarach) 9 - Aveia preta / Sulfato de cobre (CuSO4) 10 - Bacillus thuringiensis (Bt) - Bactur 1 - Baculovirus anticarsia 12 - Baculovirus erinnys 13 - Bananeira (Musa spp.) 14 - Beauveria bassiana 15 - Bergamot 16 - Biodinâmico 501, preparado 17 - Biodinâmico 500, preparado 18 - Bioinseticida (Bacillus sphaericus) 19 - Bórax 20 - Bordalesa, calda 21 - Bordalesa, pasta 2 - Brasileirinho (Diabrotica speciosa) 23 - Cal, solução ; Cal hidratada 24 - Cálamo aromático (Acorus calamus) 25 - Camomila (Matricaria camomilla) 26 - Caseinato de cálcio e enxofre 27 - Cavalinha 1(Equisetum arvense), Cavalinha 2 28 - Cebola ou cebolinha verde (Allium cepa ou Allium fistulosum) 29 - Chocolate, calda 30 - Coletor solar 31 - Composto, extrato 32 - Composto líquido de biofermentação 3 - Confrei (Symphytum officinali) 34 - Cravo-de-defunto 1(Tagetes minuta e Tagetes erecta), Cravo-de-defunto 2 35 - Curcuma (Curcuma domestica) 36 - EM - 4 (Microrganismos Eficazes) 37 - Enxofre em pó 1, Enxofre em pó 2 38 - Enxofre 39 - Enxofre, pasta 40 - Eucalipto (Eucaliptus citriodora)

61 - Nim 1(Azadirachta indica), Nim 2, Nim 3,Nim 4

41 - Feijão (Phaseolus vulgaris), palha 42 - Fosfato mono e dibásico de potássio (sais de fósforo e potássio) 43 - Fumo 1(Nicotana tabacum), Fumo 2, Fumo 3, Fumo 4, Fumo 5, Fumo 6, Fumo 7 4 - Fumo + Alho 45 - Fumo + cal virgem 46 - Gergelim (Sesamus indicus) 47 - Gliocladium 48 - Goiabeira (Psidium guayava) 49 - Herbicida Bacteriano - EM-4 50 - Leite 1, Leite 2, Leite 3, Leite 4 51 - Leite e Cinza 52 - Losna (Artemisia absinthium) 53 - Mamoeiro (Carica papaya) 54 - Mandioca (Manihotis utilissima) 57 - Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana 58 - Molibidênio 59 - Nêspera 60 - Nutrientes minerais 62 - Óleo de peixe 63 - Ostra em pó 64 - Pão caseiro 65 - Permanganato de potássio e cal 6 - Pessegueiro 67 - Pimenta (Capsicum spp.) 68 - Pimenta-do-reino (Piper nigrum) 69 - Pós-colheita, tratamento 70 - Primavera (Bougainvillea spectabilis) / Maravilha (Mirabilis jalapa) 71 - Quassia 1(Quassia amara), Quassia 2 72 - Resíduo da fermentação glutâmica do melaço 73 - Reynoutria sachalinensis (Poligonaceae) 74 - Repolho (Brassica oleracea) 75 - Saboneteira (Sapindus saponaria) 76 - Sálvia (Salvia officinales) 7 - Samambaia das taperas (Pteridium aquilinum) 78 - Solarização do solo 79 - Sulfocálcica, calda 1, Sulfocálcica na Citricultura 80 - Sulfocálcica + fumo 81 - Supermagro, biofertilizante 82 - Timbó (Derris elliptica) 83 - Timbó (Derris urucu) 84 - Timbó (Ateleia glazioviana) 85 - Tomateiro 1(Lycopersicon esculentum), tomateiro 2 86 - Trichoderma 87 - Urina de vaca 8 - Urtiga 1(Urtiga urens), Urtiga 2, Urtiga 3

89 - Vapor 90 - Viçosa, calda; Viçosa na citricultura 91 - Vinagre 92 - Adesivos : Gelatina, Óleos vegetais ou minerais, Sabão de côco, Açúcar IV - Recomendação das receitas por Praga/Doença/Desordem Fisiológica V - Anexos V.1. - Alternativa de Roupa Protetora (Equipamento de Proteção Individual - EPI)

VI - Bibliografia Citada e Consultada VII - Endereços Dos Autores VIII - Endereços de locais onde encontrar Ingredientes e Produtos citados neste Livro

I - Introdução

I.1. Práticas de Proteção de Plantas em um contexto Holístico

A compreensão da natureza somente é possível através de um enfoque geral, holístico, observando ciclos, trabalhando com sistemas, respeitando inter relações e proporções. Tudo é relativo, interdependente e relacionando e mesmo o nitrogênio pode ter até 6 valências positivas ou 4 valências negativas, conforme o ambiente em que se encontra. E a relatividade que Einstein descobriu para a força atômica vale por toda natureza.

O enfoque temático-analítico que orienta toda a ciência atual, também predomina na agricultura convencional introduzido pela “Revolução Verde” e levou ao trabalho com fatores isolados. Com isso se perdeu a visão geral e todos os sintomas que aparecem por causa de um manejo arbitrário dos solos e da natureza, são combatidos separadamente por ignorar-se suas causas. Destruindo-se os equilíbrios naturais aumentaram as pragas e doenças vegetais assustadoramente, especialmente porque as variedades ou híbridos de alta produtividade e boa tolerância a elevadas quantidades de NPK (HYV e HRV) não são mais variedades adaptadas aos solos e ao clima.

A agricultura convencional que nasceu da convenção entre uma industria semi-falida e uma agricultura próspera, após a segunda guerra mundial, salvou a indústria química e mecânica mas arruinou os agricultores em todos os países do mundo. Portanto no hemisfério Norte a agricultura foi e continua sendo subsidiada para poder comprar todos os agroquímicos como fertilizantes, fungicidas, inseticidas, bactericidas, herbicidas, desfolhantes, redutores de crescimento, bem como máquinas cada vez mais possantes e sofisticadas. Mas máquinas e herbicidas deslocaram a população camponesa, substituindo a mão-de-obra. Ninguém controlava mais os solos, que se compactaram (1), instalou-se a erosão e consequentemente enchentes e inundações. E enquanto a água começou a faltar devido a uma tecnologia inadequada para os solos, a agricultura tornou-se o maior consumidor de água com sua irrigação e seus confinamentos gigantes de animais. Pela monocultura mecanizada pragas e doenças vegetais aumentaram

troncosA situação tornou-se cada vez mais desesperadora e tudo somente por

assustadoramente e com eles o número de defensivos (agrotóxicos) e sua toxicidade. Enquanto antigamente era suficiente aplicar 2 a 3 pulverizações em soja ou 4 a 5 em algodão, já existem lavouras onde se fazem 18 pulverizações em soja e até 25 em algodão, cada segundo dia em hortaliças e até 72 vezes em maçã. As plantas se tornam cada vez menos resistentes e mais susceptíveis e quando Chaboussou em seu livro “Les plantes malades de pesticides” ( as plantas doentes dos pesticidas) (2) alerta sobre este problema, ninguém podia imaginar como plantas iriam adoecer de “remédios”. Por isso segue um exemplo: Em um cultivo de uvas de mesa apareceu Botrytis que se controlou por pulverizações diárias de Maneb, um fungicida a base de manganês. Embora o solo tenha sido abundantemente calcariado e o pH estava ao redor de 7,5 , muitas folhas das videiras tinham suas veias principais entupidas por uma substância marrom que indica a deficiência de cálcio ou o excesso de manganês. Este foi introduzido pelo Maneb. Em conseqüência da deficiência pronunciada de cálcio apareceu Antracnose, como já era previsto e que se controlou por uma superdosagem de fósforo que, por sua vez induziu a deficiência de zinco, o qual torna as plantas susceptíveis a brocas de caule. Esta apareceu no ano seguinte, minando os troncos das videiras e que se tentou controlar com injeções de Lorsban nos causa da falta do elemento Boro no solo.

O calendário de defensivos que existe para muitas culturas frutíferas e também para algodão, é nada mais do que o controle das seqüelas do primeiro defensivo (agrotóxico).

Os organoclorados como BHC, DDT, Lindane, Aldrin e outros, foram proibidos no mundo inteiro por causa de suas conseqüências nefastas à saúde humana e sua persistência nos solos e poluição das águas. Entraram os organofosforados dos quais se esperava rápida decomposição por organismos sadios. Mas como plantas parasitadas sempre são doentes e homens atualmente raramente são completamente sadios, sua decomposição não ocorre tão rápido e em todos os países mediterrâneos foi decretada sua proibição até o ano 2004 porque ataca seriamente o sistema nervoso, especialmente de crianças e jovens.

O combate integrado de pragas e doenças é cada vez mais comum, onde se usam todos os métodos que melhoram a saúde do solo e das plantas, como rotação de culturas, adubação verde, composto ou utilização de palha como cobertura morta, usam-se inimigos naturais, feromônios e defensivos orgânicos, sendo o Baculovírus em soja ou o fungo Metharrizum em cana-de-açúcar de uso comum. Pelo combate integrado de pragas o uso de agrotóxicos baixou radicalmente e no Paraná já existem fazendas que conseguem produzir soja sem agrotóxico, o que vem economizando bilhões de reais para o Estado. O combate químico acarretou a falência de muitos agricultores pequenos e médios, os quais não conseguem plantar sem financiamento do banco mas, que depois não ganham o suficiente pela venda da colheita para poder pagar suas dívidas. No combate integrado de pragas, se trocam os químicos por orgânicos ou biológicos, isto é inimigos naturais. Porém o enfoque temático permanece e a única solução para as pragas e doenças é seu combate ou seja, sua matança. Removem-se sintomas as vezes somente por 2 ou 3 dias, exigindo aplicações permanentes de agrotóxicos. A pergunta é:

- Por que não recuperar os equilíbrios quebrados, por que não restabelecer os sistemas naturais e por que não trabalhar com as interrelações dos fatores ?

- Por que não recuperar a força produtiva dos solos e por que não fornecer os nutrientes esgotados ?

Pela visão holística-sistêmica desaparecem os fatores isolados e aparece o conjunto dinâmico que rege toda natureza.

- Que são equilíbrios dinâmicos ? São ciclos em que se percorre numerosos estágios, aparentemente independentes, até se chegar ao último estágio que ao mesmo tempo também é o primeiro de um novo ciclo. O mais fácil para entender é o ciclo da água. A água do mar evapora, forma nuvens, cai como chuva, penetra no solo, abastece os níveis freáticos, nasce como vertente, deságua como afluente em um rio e finalmente volta ao mar, de onde um novo ciclo se inicia. Se este ciclo for interrompido ao nível do solo por ser este compactado e sem porosidade superficial, a água pluvial escorre, causa erosão, provoca enchentes e inundações e volta diretamente ao mar, sem passar pelo solo e abastecer o nível freático, o nível subterrâneo de água. Por isso o Globo terrestre está secando! As fontes desaparecem, os rios secam os poços não têm mais água, o nível freático baixa causando a falta de água doce, a água potável. Combate-se isso por curvas de nível, microbacias e murunduns, barragens e a retificação dos rios. Mas nada que é natural tem controle mecânico. Assim os povos da região de Sahel, no sul do Saara, sabem que o avanço do deserto não tem combate químico-mecânico, mas somente ecológico. Também a erosão e enchentes não se controlam por obras mecânicas. O único controle é ecológico-orgânico. Fornecendo matéria orgânico a à superfície do solo, descompactando-o e agregando-o, formando poros, a água da chuva consegue infiltrar-se novamente. A EMBRAPA de Passo Fundo/RS contatou que um solo agregado e protegido pela vegetação permite a infiltração de 400 m de chuva por hora. E um aguaceiro destes é muito raro! E a infiltração da água ao solo resolve também o problema da água potável, que por exemplo, é parcialmente importada pelo EUA por não a possuir mais.

O enfoque temático-analítico sempre mostra somente frações do inteiro.

Assim a adubação com elevadas dosagens de NPK não enriquecem o solo, mas o empobrece em todos os minerais que a planta necessita para produzir, simplesmente pelo fato que todos elementos nutritivos devem existir em proporções determinadas e quando se aumentar o nitrogênio falta o cobre e a planta se torna susceptível a muitas doenças fúngicas. Ou, se aumentar o fósforo, falta o zinco, o qual torna as plantas susceptíveis a brocas. Portanto com NPK pode-se forçar, por algum tempo, uma produção maior, mas causa-se um esgotamento pronunciado do solo. Assim, por exemplo, o metabolismo vegetal produz apreciável quantidade de peróxido e hidrogênio que a enzima catalase elimina. Mas a catalase necessita de ferro (5). Ou as raízes necessitam de grupos carboxílicos para poder absorver ativamente. Estes não se movimentam para a raiz se faltar boro e que está em equilíbrio delicado com potássio.

Para uma planta ser parasitada necessitam-se três condições: 1) que a planta seja deficientemente nutrida oferecendo alguma substância utilizável para o parasita, 2) que o parasita possa multiplicar livremente sem controle biológico, o que ocorre facilmente em monoculturas e 3) que o sistema de autodefesa da planta seja desmantelado, e que depende tanto da nutrição da planta como do uso de agrotóxicos (4).

A pergunta intrigante é: - Por quê existem parasitas ?Somente para destruir as lavouras ? Geralmente insetos e microrganismos somente se pesquisam quando parasitam. Em seu estado natural poucos os conhecem. Qual é seu papel no ciclo da vida?

Tudo na natureza é relativo, tudo é interligado, tudo tem também seu oposto, sua forma negativa, dos mitocôndrios, sobre a antimatéria até as constelações estrelares. Somente o oposto dá sentido a tudo. Assim não teríamos consciência da vida se não tivesse a morte; não saberíamos que é dia se não existisse a noite; não se ia conhecer a saúde sem conhecer a doença ; o sol não seria benéfico se não tivesse chuva e a alegria somente se ressalta porque existe a dor. O oposto da formação é a destruição. As plantas superiores formam substâncias orgânicas transformando a energia luminosa, em presença de água e gás carbônico, com ajuda de minerais que em sua maioria fazem parte de enzimas catalizadoras que ajudam no metabolismo da planta. Estas substâncias orgânicas são a nossa alimentação bem como a dos animais. Mas si somente tivesse a formação de substâncias orgânicas sem a sua decomposição o mundo seria de tal modo atulhado de plantas, animais e homens mortos, que fazem milhões de anos, a vida seria impossível. Nenhuma planta consegue comer pedaços de outra. O planeta Terra seria um deserto orgânico. Para que isso não acontecer existem os insetos e microrganismos. Eles são a polícia sanitária do Globo terrestre, decompondo à energia, água, gás carbônico e minerais que é morto, velho, fraco e doente. Mas para evitar que ataquem também seres vivos, sadios, eles estão programados estritamente para uma ou duas substâncias através de suas enzimas. Bactérias fungos e insetos possuem preferencialmente poucos processos enzimáticos de obtenção de energia. Enzimas são muito específicas. Eles conseguem agir somente sobre uma única estrutura química. Adicionando um meio oxigênio a uma estrutura, esta já se torna outra substância e a enzima não consegue mais digerí-la. Isso significa que nenhum destes insetos ou micróbios pode atacar uma planta simplesmente porque esta existe. Somente pode atacá-la se “oferece” a substância que está no alcance de sua enzima. Substâncias que as enzimas destes pequenos seres podem atacar são sempre “semi-fabricadas” substâncias ao meio caminho que não podiam ser terminadas porque faltou algum ativador para suas enzimas. E este ativador sempre é um mineral. Faltando uma reação química, forma-se isso que se chama de barreira química (7) porque nenhuma outra enzima na planta é capaz de processar esta substância. Ela se acumula, circula na seiva e finalmente é aproveitada por um inseto ou micróbio, que agora se chama de “parasitas”. Mas na verdade somente executam uma lei natural, eliminando o que não presta para uma vida plena e sadia.

Protegendo a planta por algum defensivo, seja ele químico ou orgânico, ela permanece doente, produz sementes fracas e dá origem somente a outras plantas doentes. A espécie degenera e finalmente desaparace. Para evitar a degeneração da vida a natureza elimina o que não é adaptado, e as variedades atuais raramente o são e com isso a própria vida está em jogo.

Assim se uma planta não consegue formar proteínas e os aminoácidos permanecem livres, se não há formação de açúcares mais complexos nem de ácidos graxos com ligações duplas ela oferece substâncias que podem ser parasitadas. Nenhum fungo possui enzimas proteolíticas ou seja enzimas que podem decompor proteínas. Por isso as saúvas (Atta spp.) nunca cortam folhas com proteínas formadas. Seus fungos não as poderiam digerir e iriam morrer de fome. E como as formigas vivem dos fungos seria sua condenação à morte. Assim, por exemplo, na região do cerrado falta molibdênio nos solos impedindo a formação de proteínas. Acrescentando este micronutriente ao solo ou via foliar as proteínas se formam e as saúvas não cortam mais as folhas.

Os microrganismos geralmente levam um vida pacífica embora na natureza exista a lei de “comer e ser comido”. Isso é o controle biológico pois evitar a multiplicação exagerada de um ou outro ser. Mas quando se sempre oferece a mesma alimentação, por exemplo palha de soja, somente alguns poucos organismos têm a possibilidade de se nutrir dela e os outros morrem.

Os “beneficiados” se multiplicam demasiadamente e finalmente podem especializar-se, ser parasitas. Por isso a rotação de culturas evita a multiplicação de uma ou outra espécie. A maioria dos micróbios “parasitas” normalmente têm uma vida pacífica (6). A Pseudomonas tabaci vive como fixadora de nitrogênio na rizosfera do fumo. Mas quando falta potássio para este, ela ataca suas folhas como parasita. A Rizoctonia vive como simbionte vascular em muitas plantas aumentando sua resistência à seca. Mas se faltar cobre, torna-se parasita radicular. O Bacilus subtilis é uma bactéria de putrefação, mas quando vive junto com o Mesentericus ele fixa nitrogênio (3). As rizobacter ou bactérias noduladoras fixam nitrogênio nas raízes das leguminosas porém em monoculturas, especialmente quando esgotado o molibdênio e cobalto, se tornam deletérias, parasitando e matando as plantas. O Clostridium butylicum é considerado “A bactéria da terra”. Ela transforma os carboidratos de matéria orgânica à ácidos orgânicos que mobilizam nutrientes para as plantas. Também pode fixar nitrogênio e as vezes vive no intestino de ruminantes tomando parte na decomposição final de proteínas. Mas em pastagens deficientes de fósforo provoca botulismo em gado. A Giberela fujikuroi faz as pastagens crescer mais rápidas e mais uniformes, também ajuda as sementes nascer. Porém em cultivos de trigo e arroz deficientes em cobre e manganês, ataca as espigas como parasita. O Aspergillus niger produz ácido cítrico no solo durante a decomposição de matéria orgânica, mobilizando nutrientes minerais no solo. Mas quando tiver sementes fracas e mal nutridas, ele as deixa apodrecer antes de germinar.

O limite entre benéfico e maléfico não se deve procurar nas bactérias, fungos e insetos, mas nas plantas mal nutridas. A vida em função de sua alimentação, diz Chaboussou na sua Trofobiose. Plantas e animais equilibradamente nutridos servem para a manutenção da vida. Mal ou desequilibradamente nutridos são condenados a eliminação. Se o homem teimar em comer o que a natureza condenou como imprestável não pode esperar que a alimentação contribua a sua saúde. E uma reportagem da BBC de Londres mostra que plantas tratadas com agrotóxicos formam estrogênio, isto é hormônio feminino altamente desfavoráveis a saúde e reprodução humana e animal (8).

Por isso defensivos alternativos são muito vantajosos, porque não produzem estes resíduos. Porém plantas parasitadas sempre são plantas doentes não podendo formas todas as substâncias a que geneticamente seriam capazes, por falta de catalizadores. Catalizadores aumentam a velocidade de uma reação química. Em sua presença esta reação ocorre, por exemplo , em 2 minutos, em sua ausência em 3 horas. Consequentemente muitas não se conseguem formar e o produto final, seja ele um grão como trigo ou milho, uma fruta ou uma verdura, é biologicamente inferior. Assim nosso trigo possui menos glúten que desejável e portanto fornece uma farinha inferior de pouco valor nutritivo e industrial. As frutas e verduras têm menos sabor e valor nutritivo.

Quando são enlatadas acrescentam-se até 15 aditivos como acidulantes, adocicantes, aromatizantes, conservantes, vitaminas, minerais etc, para lhes conferir algum valor nutritivo.

Defensivos, tanto faz se são químicos, orgânicos ou biológicos conseguem manter a cultura livre do parasita, mas não conseguem curá-la. Ela permanece doente. E com plantas doentes não se pode assegurar a saúde humana. Economicamente é interessante porque o agricultor consegue colher, ele não perde sua safra. Mas na Austrália, os agricultores dizem: “uma praga atacou minha cultura, o que está errado com meu solo?” Combatem a praga, para não perder a safra, mas procuram depois sanar o solo, acrescentar o mineral ou matéria orgânica que faltava para evitar futuro ataque de pragas e produzir um produto mais saudável, mais nutritivo. Combate algum deve ser prática corriqueira, mas sempre a excessão. Pragas e doenças não devem ter a possibilidade de atacar. E todos, com alguma responsabilidade para com sua família e seus semelhantes, em caso de emergência usarão métodos orgânicos ou biológicos que são menos perigosos para o consumidor e para o agricultor, para que não aconteça como num bataticultor no Paraná, que quando perguntado se suas batatas são boas, disse: “credo, estas não são para comer. Servem somente para vender!”

Ana Maria Primavesi BIBLIOGRAFIA

1- AMERICAN SOCIETY OF AGRICULTURAL ENGENEERS, 1971, Compaction of agricultural soils. Basselmann, Milch. CHABOUSSOU, F. 1981, Les plantes malades de pesticides. Debard, Paris FLORENZANI, G. , 1972, Elementi di microbiologia terreno, Edit. D. Agricultori, Roma. GALLI, F., TOKESHI, H., TORRES DE CARVALHO, P.C. et alii, 1968, Manual de Fitopatologia, Bibl. Agron. Ceres, São Paulo. MENGEL, K. e KIRKBY, E.A., 1978, Principles of plant nutrition. Int. Potash Inat. Suissa.

PRIMAVESI, A. e PRIMAVESI, A.M., 1965, A Biocenose do solo na produção vegetal. Palotti, Sta. Maria, Rs. SHÜTTE, K.H. 1964, The biology of trace elements. Crosby Lockwood, London COLBORN, T.; DUMANOSKI, D. e PETERSON, J. , O futuro roubado, Editora L&PM, Porto Alegre, 354 p, 1997.

I.2.1. Panorama atual da produção animal

I.2. Produção Animal Sustentável

A produção animal sofreu grandes transformações nas últimas décadas, seguindo a tendência de se realizar criações em confinamento com o objetivo de reduzir custos e tornar possível um mesmo homem manejar um número bem maior de animais. Junto com este sistema de produção, houve uma redução da necessidade de mão-de-obra, agravando o êxodo rural.

Como vários autores demonstraram, entre os quais ZANELLA, 1995 e

BOENCKE, 1985, a natural falta de adaptação dos animais a estes novos sistemas e a sua inadequação às expressões comportamentais mais corriqueiras provocam estresses a estes animais. O animal constantemente estressado adoece com facilidade. Também o inadequado manejo das suas excreções, além dos prejuízos ao meio ambiente, é causa do aumento das doenças dos animais confinados. O conseqüente aumento do uso de medicamentos e agrotóxicos ensejou o aumento da produção animal, e a sua maior oferta no mercado, contribuiu para o seu uso de forma quase universal, isto é, também nos sistemas semi-intensivos e extensivos. Todo problema de saúde dos animais passou a ser tratado de uma única forma, com medicamentos e agrotóxicos. Desta forma, tratase os sintomas sem eliminar as causas das doenças, que no caso dos animais na grande maioria dos casos, podem ser devido aos sistemas de produção.

Assim, como conseqüência natural, aumentaram os níveis de resíduos de medicamentos, agrotóxicos, antibióticos e hormônios nos alimentos e no meio ambiente, com destaque especial para a água, por ser esta uma forma adicional de contaminação do homem e dos animais. A situação atingiu tal magnitude que TRAPË (1995) conclui que a população em geral, ao consumir alimentos provenientes de produções tratadas com os diferentes biocidas, está exposta à ingestão diária de resíduos por praticamente toda a vida. Estes estão associados a várias doenças, sendo que no caso daqueles que trabalham diretamente na produção, o perigo é maior. No caso da produção animal, por exemplo, certos tipos de câncer dos que trabalham com bovinocultura são associados aos agrotóxicos utilizados (CLAVEL et al., 1995). E no trabalho com aves, câncer no final da infância e início da idade adulta, em filhos dos produtores, está associado aos agrotóxicos utilizados nesta produção (KRISTENSEN et al. 1996). Os graves danos ao meio ambiente e à saúde do homem causados pelo uso, hoje corriqueiro, destes insumos agropecuários, já está suficiente comprovado de forma científica. Eles aumentam os custos da saúde pública com o tratamento das doenças que provocam, os quais a população não quer mais pagar, conforme estudo de PIMENTEL et al. 1992. Além de reduzir as margens de lucro dos produtores devido ao aumento da resistência dos parasitas pelo uso indiscriminado dos antibióticos e agrotóxicos.

I.2. 2. As principais causas das doenças dos animais

Na produção animal sustentável precisamos ter em vista, em primeiro lugar, as causas dos males que atingem nossos animais, pois não se trata aqui apenas de renunciar aos tratamentos convencionais substituindo-os por tratamentos alternativos. Por isso precisamos conhecer bem as causas das principais doenças e os principais parasitas, para que possamos fazer tudo para prevenir o seu aparecimento. Se houver sucesso na prevenção, a maior parte dos problemas de saúde dos animais será evitado e os tratamentos serão raros. Enquanto os tratamentos não são raros, é possível melhorar.

Todo sistema que impede, ainda que parcialmente, as manifestações comportamentais da espécie, seja um bovino, um suíno, ou qualquer outros, provocam-lhes estresses favorecendo o seu adoecimento. É o caso dos semiconfinamentos, quando os animais são mantidos nesta condição uma parte do dia, especialmente em ambientes fechados e com a presença das suas excreções ou a evaporação destas. Mesmo em ambientes abertos e mais amplos, quando o piso é de concreto, a situação não é muito diferente do que nos confinamentos totais. Toda espécie tem a necessidade e a sua maneira particular de se movimentar, uma forma de deitar e levantar, horários preferidos de beber água, de se alimentar ou de vagabundear, entre outras maneiras de se comportar, e quando qualquer uma destas está sendo tolhida, um estresse está sendo provocado. A constância deste acabará por provocar doença.

Para os animais pastadores, mesmo nas criações ao ar livre o sistema de produção pode ser causa de ataques a sua saúde. É o caso do sistema extensivo em que os animais permanecem vários dias e mesmo semanas numa mesma parcela ou área de pasto. Desta forma eles são constantemente reinfestados com parasitas, com destaque para os vermes gastrointestinais e os carrapatos, porque estes tem sempre o seu hospedeiro presente. A ausência do animal hospedeiro por certo período reduz a população destes parasitas a níveis tão baixos que tratamentos curativos são raros ou mesmo desnecessários, o que está relacionado ao sistema de produção.

O uso de agrotóxicos e medicamentos é também causa das doenças dos animais, o que parece ser uma contradição, mas não é. Basta lembrar o que vivemos hoje em relação à resistência dos parasitas, em especial com relação aos antibióticos. Os agrotóxicos e medicamentos aplicados nos animais são excretados junto com seus excrementos. No caso dos bovinos, micro e macrorganismos associados à bosta são assim eliminados, uns tem atuação contra os vermes gastrointestinais, outros que são coprófagos e eliminariam a bosta rapidamente (os populares rola- ou vira-bosta), com isso evitaria a reprodução da mosca do chifre. A permanência do esterco é a causa da doença causada pela mosca do chifre. Fungos e bactérias que combatem os vermes gastrointestinais poderiam ser usados numa tecnologia de processo que os fizessem reduz a níveis abaixo do nível de dano.

Atualmente nas criações consideradas modernas, os animais são exigidos a realizar performances extremamente altas, como 10.0 Kg leite/lactação para vacas ou 1 Kg de ganho diário de peso para suínos na engorda. A partir de um certo limite de produção em cada espécie, começam a ocorrer, distúrbios metabólicos e reprodutivos, piora na qualidade da carne, aumento dos problemas de infecções de úbere além da vida produtiva dos animais ser encurtada. Quando os limites fisiológicos da cada espécie é ultrapassado, os animais pagam um custo em saúde por isso.

Para o recém-nascido a falta da ingestão do colostro, o primeiro leite materno, logo nas primeiras horas após o parto pode significar a morte ou a doença. Quanto mais cedo o colostro for ingerido, mais saudável será o neonato; quanto mais demorar para ser ingerido, mais doente será o neonato nos primeiros meses de vida. As primeiras seis horas após o parto são de fundamental importância neste sentido, assim como, quanto mais velha a vaca maior é o conteúdo de anticorpos no seu colostro (Lambrecht et al. 1982, citado por BOENCKE, 1985).

Discutimos as principais causas das doenças dos animais para tornar claro que o seu conhecimento é a chave para a sua eliminação e, em conseqüência, para que as doenças não ocorram. Naturalmente, ainda assim elas podem vir a ocorrer, mas serão em número reduzido e mais facilmente controláveis. Através dos conhecimento dos processos que geram estas causas, podem ser desenvolvidas tecnologias de processo, aquelas que interferem no processo evitando que os danos ocorram. Muitas já são conhecidas e serão discutidas a seguir.

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