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Exame Físico Geral ou de Rotina FRANCISCO LEYDSON F. FEITOSA

SABENDO MAIS, o ESPECIALISTA SABE MELHOR." (Silvano Raia)

A realização de um exame físico geral ou de rotina é necessária por inúmeras razões, dentre as quais pode-se destacar:

1. Por serem incapazes de se comunicar verbalmente com os homens, os animais não dizem qual estrutura ou órgão do corpo está com prometido, ficando, a história do caso em questão, na dependên cia do conhecimento do entrevistado e da habilidade c experiên cia do examinador em obtê-la, o que torna o exame físico geral, nessa fase, de fundamental importância nos casos em que a his tória é vaga e inespecífica. 2. Muitas vezes, a queixa principal não apresenta relação direta com o sistema primariamente comprometido. 3. O exame físico geral permite avaliar, rotineiramente, o estado atual de saúde do paciente (melhorou/piorou/estagnou). 4. Por permitir reconhecer o comprometimento de outros sistemas ou estruturas do corpo (ncoplasia mamaria = metástasc pulmonar). 5. Em decorrência da dinâmica que os sintomas apresentam em di ferentes enfermidades e, às vezes, em uma mesma doença em um determinado período. As características e a intensidade dos sinais clínicos apresentam uma variação muito ampla, até mesmo

78 Semiologia Veterinária: A Arte do Diagnóstico em uma mesma enfermidade, de modo que a multiplicidade dos sintomas clínicos dificulta a obtenção do diagnóstico.

O exame físico geral constitui, dessa forma, um passo decisivo para a realização do exame físico específico, já que, sendo generalista, dá ao clínico, em um só momento e de uma só vez, uma visão de conjunto (da grande maioria dos sistemas orgânicos e do corpo como um todo). É bem verdade que, algumas vezes, as circunstâncias obrigam o clínico a modificar o cronograma de exame, fazendo com que o mesmo só venha a ser realizado em sua totalidade depois de afastadas algumas condições que possam colocar em risco a vida do animal. Como exemplo, tem-se os casos de timpanismo espumoso em ruminantes, cólicas obstrutivas cm equinos, atropelamentos com hemorragias intensas em pequenos animais ou intoxicações, quando são necessárias medidas eficazes e imediatas para alterar o quadro crítico em que se encontra o paciente. Outras vezes, tornase necessário um exame físico mais rápido ou mais superficial (animais rebeldes ou agressivos, animais selvagens, condições ambientais impróprias, ou exame de um grande número de animais).

A adoção de uma mesma sequência de exame, se repetida várias vezes, torna-se um hábito, sendo o melhor modo de reduzir a possibilidade de erros diagnósticos, junto à realização de um exame físico geral.

A observação do animal pode fornecer inúmeras informações úteis para o diagnóstico, tais como:

Nível de consciência. Alerta (normal), diminuído (deprimido, apático), aumentado (excitado).

Postura e locomoção. Normal ou anormal (sugerindo dor localizada, fratura, luxação ou doenças neurológicas); observe o animal em repouso e, em seguida, em movimento.

Condição física ou corporal. Obeso, gordo, normal, magro, caquético.

Pelame. Pêlos limpos, brilhantes ou eriçados, presença de ectoparasitas (carrapatos, piolhos, pulgas, etc.).

Forma abdominal. Normal, anormal (timpanismo, ascite, etc.).

Características respiratórias. Eupnéia ou dispneia (postura ortopnéica), tipo respiratório, secreção nasal, etc.

Outros. Apetite, sede, defecação, vómito, secreções (vaginal, nasal, ocular) micção, etc.

O comportamento ou o nível de consciência do animal deve ser avaliado pela inspeção, considerando, ainda, a sua reação a estímulos, como palmas ou estalos de dedos. Deve-se considerar a excitabilidade do animal como "diminuída" (apático), "ausente" (coma), "normal" e "aumentada" (excitado). Há, porém, animais sadios que reagem prontamente aos estímulos, enquanto outros o fazem lentamente. Por isso, em algumas ocasiões, este se torna um parâmetro subjetivo. Cabe, por fim, lembrar que o temperamento típico de cada espécie deve ser considerado. Por exemplo, vacas de leite são animais dóceis e fáceis de manusear. Por outro lado, bovinos de origem indiana, por serem mantidos exclusivamente no pasto, costumam ser mais inquietos, mais ágeis e hostis.

E o posicionamento que o animal adota quando em posição quadrupedal, quando em decúbito e durante a locomoção. É necessário avaliar se o animal assume algum padrão de postura pouco usual, indicativo, muitas vezes, de anormalidades. Para isso, é necessário o conhecimento do comportamento da espécie envolvida. Por exemplo, o cavalo passa a maior parte do dia em posição quadrupedal e, quando deita, geralmente posiciona-se em decúbito lateral. O bovino permanece muito mais tempo em decúbito que o cavalo, só que em posicionamento esternal ou lateral incompleto. Em geral, permanece em decúbito esternal, mantendo a cabeça levantada e a expressão alerta, durante a ruminação. O cão adota o decúbito para descansar ou dormir e o faz em diferentes posições, inclusive em decúbito dorsal. Não é infreqúente o cão flexionar os membros anteriores e posteriores, apoiando o esterno sobre o piso; essa é uma das formas de perder calor. A maioria dos animais pecuários saudáveis, quando abordados em decúbito, erguem-se. Ao"sej conduzido para o local de exame, o animal manifesta resposta a estímulos externos, por uma simples alteração nos seus movimentos e/ou por emissão de ruídos. As atitudes anormais do corpo ocorrem, quase sempre, como indicação de enfermidade. Os animais, quando doentes, ficam com a cabeça baixa, se afastam do rebanho ou se levantam com dificuldade (grandes animais) e adotam posições características como, por exemplo, a postura ortopnéica

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Figura 4.1 - Cão com provável disjunção íleo-sacral.

que acompanha principalmente as enfermidades do sistema respiratório, caracterizada por distensão do pescoço, protrusão da língua c abdução dos membros anteriores; a curvatura da coluna vertebral (cifose) em casos de processos dolorosos em cavidade abdominal, etc. Os pequenos animais, geralmente, escondem-se, ficam indiferentes ou apáticos, gemem e, às vezes, irritam-se facilmente. Nenhum animal adotará uma postura anormal, seja em posição quadrupedal, em decúbito ou em locomoção, sem que haja algum fator determinante. As posturas anormais sugerem, na grande maioria dos casos, algia localizada e/ou comprometimento do sistema nervoso.

Algumas atitudes são conhecidas e descritas amplamente na literatura com nomes que se assemelham à postura adotada pelo animal. Alguns exemplos são:

a) Postura de cachorro sentado: observada, por exemplo, nos casos de paralisia espástica dos membros posteriores; b) Postura de foca: comumente vista nas parali sias flácidas dos membros posteriores; c) Postura de cavalete: observa-se rigidez e abdução dos quatro membros, sendo vista, mais frequentemente, nos casos de tétano.

Ao examinar o estado nutricional do animal devese levar em conta sua espécie, raça e utilidade ou aptidão. Convém descrever a condição corporal ou física do animal de forma objetiva e sem dúbia interpretação, tal como "caquético, magro, normal, gordo e obeso". Deve-se evitar termos como "bom" e "ruim", uma vez que o estado de magreza e/ou de obesidade são igualmente ruins, mas de aspectos opostos. Em animais normais, todas as partes proeminentes do esqueleto estão cobertas por músculos ou gordura, dando ao corpo um aspecto arredondado. Nos animais magros, várias partes do esqueleto são prontamente identificáveis (costelas, pelve) (Fig. 4.2). Em animais de pêlos curtos, esse exame pode ser realizado pela inspeção, enquanto, em animais peludos ou lanados (como observado em algumas raças de ovinos, de cães e gatos), deve-se fazê-lo pela palpação da região sacra, avaliando-se o preenchimento da musculatura nessa região. A caquexia é o grau extremo da perda de peso. Os animais apresentam-se, ainda, com pêlo sem brilho, pele seca e pobre performance. Devemos lembrar que o animal pode estar magro por não receber alimentação adequada, ou por doença, mesmo recebendo boa alimentação. Uma perda de peso de 30 a 50% da massa corporal total é usualmente fatal.~ínversamente, a obesidade é vista com certa frequência, podendo ter, de forma simplista, as seguintes causas:

• Endógena: distúrbio endócrino. Por exemplo, hipotireoidismo.

• Exógena: superalimentação ou alimentação mal-orientada. Quando a alimentação é rica em carboidratos e gordura a tendência do

Figura 4.2 - Equino com emagrecimento acentuado (caquexia).

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Figura 4.1 - Cão com provável disjunção íleo-sacral.

que acompanha principalmente as enfermidades do sistema respiratório, caracterizada por distensão do pescoço, protrusão da língua e abdução dos membros anteriores; a curvatura da coluna vertebral (cifose) em casos de processos dolorosos em cavidade abdominal, etc. Os pequenos animais, geralmente, escondem-se, ficam indiferentes ou apáticos, gemem e, às vezes, irritam-se facilmente. Nenhum animal adotará uma postura anormal, seja em posição quadrupedal, em decúbito ou em locomoção, sem que haja algum fator determinante. As posturas anormais sugerem, na grande maioria dos casos, algia localizada e/ou comprometimento do sistema nervoso.

Algumas atitudes são conhecidas e descritas amplamente na literatura com nomes que se assemelham à postura adotada pelo animal. Alguns exemplos são:

a) Postura de cachorro sentado: observada, por exemplo, nos casos de paralisia espástica dos membros posteriores; b) Postura de foca: comumcntc vista nas parali sias flácidas dos membros posteriores; c) Postura de cavalete: observa-se rigidez e abdução dos quatro membros, sendo vista, mais frequentemente, nos casos de tétano.

Ao examinar o estado nutricional do animal devese levar em conta sua espécie, raça e utilidade ou aptidão. Convém descrever a condição corporal ou física do animal de forma objetiva e sem dúbia interpretação, tal como "caquético, magro, normal, gordo e obeso". Deve-se evitar termos como "bom" e "ruim", uma vez que o estado de magreza e/ou de obesidade são igualmente ruins, mas de aspectos opostos. Em animais normais, todas as partes proeminentes do esqueleto estão cobertas por músculos ou gordura, dando ao corpo um aspecto arredondado. Nos animais magros, várias partes do esqueleto são prontamente identificáveis (costelas, pelve) (Fig. 4.2). Em animais de pêlos curtos, esse exame pode ser realizado pela inspcção, enquanto, em animais peludos ou lanados (como observado em algumas raças de ovinos, de cães e gatos), deve-se fazê-lo pela palpação da região sacra, avaliando-se o preenchimento da musculatura nessa região. A caquexia é o grau extremo da perda de peso. Os animais apresentam-se, ainda, com pêlo sem brilho, pele seca e pobre performance. Devemos lembrar que o animal pode estar magro por não receber alimentação adequada, ou por doença, mesmo recebendo boa alimentação. Uma perda de peso de 30 a 50% da massa corporal total é usualmente fatáT Inversamente, a obesidade é vista com certa frequência, podendo ter, de forma simplista, as seguintes causas:

• Endógena: distúrbio endócrino. Por exemplo, hipotireoidismo.

• Exógena: superalimentação ou alimentação mal-orientada. Quando a alimentação é rica em carboidratos e gordura a tendência do

Figura 4.2 - Equino com emagrecimento acentuado (caquexia).

80 Semiologia Veterinária: A Arte do Diagnóstico animal é engordar, principalmente animais idosos ou sedentários.

• Mista: manejo alimentar erróneo associado a distúrbios endócrinos.

A obesidade geralmente é identificada pela inspeção do animal. Os animais, de maneira geral, devem possuir as costelas facilmente palpáveis e a forma de ampulheta quando vistos de cima. Incapacidade de palpar as costelas, falta de recorte caudal à última costela, abdome penduloso, abdome protruso depois da última costela e depósito de gordura facilmente palpáveis em ambos os lados do início da cauda sobre os quadris ou na área inguinal sugerem obesidade. A obesidade é a desordem nutricional mais comum em pequenos animais, sendo caracterizada pela elevação de 15 a 20% do peso considerado normal para a raça e a idade do animal. A história nutricional deve incluir a quantidade e a qualidade da dieta, comparando-as com a recomendada para a espécie e raça envolvida. Para cães e gatos é importante questionar o proprietário sobre o fornecimento de restos de comida caseira ou de guloseimas aos mesmos. A alimentação de animais pecuários é menos controlada e mais difícil de ser checada. A ocorrência de deficiências nutricionais, de mudanças repentinas de regime alimentar ou de doenças parasitárias é de grande importância para as várias espécies envolvidas.

Tanto fisiológica como anatomicamente, a pele é um órgão complexo. Há um ditado que se ajusta perfeitamente à sua importância para o exame clínico: "a pele é o espelho da saúde". Nos animais, o estado do manto piloso é também um bom indicador da saúde física, tanto em relação ao estado nutricional, à constituição física do indivíduo, quanto ao manejo a que esse animal é submetido (ou seja, é um bom revelador, também, das características de manejo adotado pelo proprietário do animal). Um animal com pêlos sujos, despenteados, eriçados, com ectoparasitas e sem brilho, poderá revelar um proprietário pouco cuidadoso ou que não mantém um vínculo estreito com o animal. As alterações de pele podem ser localizadas ou generalizadas, únicas ou múltiplas, simétricas ou assimétricas, etc. Tais considerações serão feitas no capítulo de Semiologia da Pele. No entanto, durante essa fase de exame, podemos avaliar a pele em virtude da sua grande importância para se determinar o estado de hidratação do paciente.

O grau de desidratação dos animais é frequentemente estimado, mas dificilmente quantificado. A desidratação pode ser medida comparando-se o peso corporal inicial (antes da desidratação) com o peso do animal desidratado, mas raramente o peso do animal é conhecido antes da ocorrência do problema. O primeiro e mais importante sinal de desidratação é o ressecamento e o enrugamento da pele. Uma pele normal é elástica quando pinçada com os dedos, voltando rapidamente à posição normal quando solta (dois segundos, em média). Em animais desidratados, quanto maior for o grau de desidratação, maior será o tempo (em segundos) que a pele permanecerá deformada. A desidratação discreta (até 5%) não promove alterações clínicas marcantes. No entanto, os animais com desidratação moderada a grave apresentarão várias alterações importantes, incluindo o aprofundamento ou a retração do globo ocular na órbita, em virtude da perda de fluido em região periorbital e ocular. Outras alterações observadas em casos de desidratação encontram-se apresentadas na Tabela 4. l. Em grandes animais, a pele da pálpebra superior e a da região cervical (tábua do pescoço) fornecem bons indícios do grau de desidratação que, em termos clínicos, é avaliado como uma porcentagem do peso corporal. A avaliação da concentração das proteínas totais (somente em animais que não possuem hipoproteinemia) e do hcmatócrito também pode ser utilizada. Deve-se ter cuidado na estimativa da desidratação em raças que apresentam pele em excesso (sharpei, por exemplo) e em animais idosos, cuja elasticidade de pele se encontra fisiologicamente diminuída. Da mesma forma, deve-se levar em consideração o estado nutricional do animal para a estimativa da desidratação pela elasticidade da pele, já que animais gordos ou obesos podem ter seu grau de desidratação subestimado (em virtude do acúmulo de tecido adiposo em região subcutânea) ou superestimado em animais magros (pela ausência de gordura).

Existem duas causas principais de desidratação: ingestão inadequada de água (devido à privação ou à diminuição na ingestão de água em decorrência de algumas enfermidades ou por impedimento à ingestão por paralisia faríngea ou obstrução esofágica, por exemplo). No entanto, a perda excessiva de líquido promovida pela ocorrência de diarreia e/ou vómito é a principal causa de desidratação observada.

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Tabela 4.1 - Estimativa da desidratação através da avaliação física do animal. Até 5% (não aparente)

Entre 6 e 8% (Leve) Entre 8 e 10% (Moderada)

•l Elasticidade da pele discreta ou sem alteração Enoftalmia ausente ou muito discreta Estado geral sem alteração ou levemente alterado Apetite preservado/sucção geralmente presente Animal alerta e em posição quadrupedal

•l Elasticidade da pele (de 2 a 4 segundos) Enoftalmia leve Animal ainda alerta

•l Elasticidade da pele (6 a 10 segundos) Enoftalmia evidente •l Reflexos palpebrais

•l Temperatura das extremidades dos membros, de orelhas e focinho Mucosas secas Mantém-se em posição quadrupedal e/ou em decúbito esternal Apatia de intensidade variável

-l Marcante da elasticidade da pele (> 10 segundos) Enoftalmia intensa Extremidades, orelhas e focinho frios Tônus muscular i ou ausente Mucosas ressecadas Reflexos muito i ou ausentes Decúbito lateral Apatia intensa

Possível óbito

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