Jane Austen - Persuasão

Jane Austen - Persuasão

(Parte 1 de 6)

PERSUASÃO JANE AUSTEN Título original: Persuasion

Tradução de Isabel Sequeira Tradução portuguesa (C) de P. E. A.

Direitos reservados por Publicações Europa-América, Lda. Editor: Francisco Lyon de Castro

PUBLICAçõES EUROPA-AMéRICA, LDA. Apartado 8 2726 MEM MARTINS CODEX PORTUGAL VOLUME I

Um Sir Walter Elliot, do Solar de Kellynch, em Somersetshire, era um homem que, para se distrair, nunca pegava num livro, com excepção dos Anais dos Baronetes; aí encontrava ele ocupação para as horas de ócio e consolação para as horas tristes; aí sentia ele estimulados o respeito e a admiração, ao contemplar o pouco que restava dos primeiros títulos nobiliárquicos; aí, quaisquer sensações desagradáveis provocadas por assuntos de natureza doméstica transformavam-se naturalmente em pena e desdém. Quando acabava de folhear a quase interminável lista de pares criados no último século - e aí, se todas as outras páginasnão surtissem efeito, ele lia a sua própria história com um interesse que nunca esmorecia-chegava à página em que o seu volume favorito era sempre aberto: ®ELLIOT DO SOLAR DE KELLYNCh.

®Walter Elliot, nascido em 1 de Março de 1760, casado em 15 de Julho de 1784, com Elizabeth, filha de James Stevenson, de South Park, condado de Gloucester; desta senhora (falecida em 1800) nasceram Elizabeth, nascida a 1 de Junho de 1785; Anne, nascida a 9 de Agosto de 1787; um filho nado-morto a 5 de Novembro de 1789; Mary, nascida a 2 de Novembro de 1791.¯

Fora exactamente assim que o parágrafo saíra originalmente da impressão; mas Sir Walter tinha-o beneficiado, acrescentando estas palavras, na informação sobre si próprio e a sua família: depois da data de nascimento de Mary - ®casada, em 16 de Dezembro de 1810, com Charles, filho e herdeiro de Charles Musgrove, Esq. de Uppercross, condado de Somerset - e introduzindo, com maior exactidão, o dia do mês em que perdera a mulher. Depois, seguia-se a história da ascensão da antiga e respeitável família, nos termos habituais; como viera para Cheshire, como era mencionada em

Dugdale - ocupando o cargo de xerife, representando a vila em três sessões parlamentares sucessivas; manifestações de lealdade, o título de baronete, no primeiro ano do reinado de Charles I, e todas as Marys e Elizabeths com quem se tinham casado; formando, ao todo, duas belas páginass duodecimal e concluindo com as armas e a divisa: ®Residência principal, Kellynch Hall, no condado de Somerset, e de novo a letra de Sir Walter no fim: ®Presumível herdeiro, William Walter Elliot, Esq., bisneto do segundo Sir Walter.¯

A vaidade era o princípio e o fim do carácter de Sir Walter: vaidade pela sua pessoa e posição. Ele tinha sido extraordinariamente belo na sua juventude; e, aos 5 anos, ainda era um homem muito atraente. Poucas mulheres se preocupavam mais com o seu aspecto do que ele; nem o criado pessoal de um lorde que tivesse acabado de receber este título se sentiria tão satisfeito com o seu lugar na sociedade. Ele considerava a bênção da beleza inferior apenasà bênção de ser baronete; e Sir Walter

Elliot, que possuía ambos os dons, era o objecto constante do seu mais caloroso respeito e admiração. Ele sentia gratidão pela sua elegância e posição social, pois certamente lhes devia o facto de ter arranjado uma mulher de carácter muito superior ao que o seu próprio carácter merecia. Lady Elliot tinha sido uma excelente mulher, sensata e dócil, cujo discernimento e conduta, se lhe for perdoada a paixoneta juvenil que fez dela Lady Elliot, nunca, depois disso, mereceram a menor censura. Durante dezassete anos, ela minimizara, escondera ou desculpara os defeitos dele e promovera a sua verdadeira respeitabilidade; e, embora ela própria não fosse a pessoa mais feliz do mundo, acabou por encontrar, nas suas obrigações, nos seus amigos e nas filhas, satisfação suficiente para que tivesse apego à vida e não se sentisse indiferente quando chegou a hora de os deixar. Três raparigas, as duas mais velhas com 16 e 14 anos, constituíam uma herança terrível para qualquer mãe deixar; ou, por outra, para confiar à autoridade e orientação de um pai presunçoso e tolo. Ela tinha, porém, uma amiga muito íntima, uma mulher sensata e digna que ela tinha convencido, com a sua grande amizade, a vir viver perto dela, na aldeia de Kellynch; e Lady Elliot confiava sobretudo na sua generosidade e nos seus bons conselhos para ajudar a manter os bons princípios e ensinamentos que ela transmitira empenhadamente às filhas.

Esta amiga e Sir Walter não se casaram, ao contrário do que as suas relações poderiam levar a supor. Passados treze anos sobre a morte de Lady Elliot, ainda eram vizinhos e amigos íntimos; e ele continuava viúvo, e ela, vviúva. O facto de Lady Russell, uma mulher com maturidade de idade e de carácter e com uma situação económica extremamente boa, não pensar num segundo casamento, não necessita de qualquer justificação perante o público, o qual tende a ficar, absurdamente, mais descontente quando uma mulher volta a casar-se do que quando ela não se casa; mas o facto de Sir

Walter continuar viúvo exige uma explicação. Faça-se saber, pois, que Sir Walter, como um bom pai (tendo sofrido uma ou duas desilusões com pretendentes muito pouco razoáveis), orgulhava-se de continuar solteiro por causa da sua querida filha. Por uma filha, a mais velha, ele teria desistido de qualquer coisa, o que não se sentira muito tentado a fazer. Elizabeth tinha, aos 16 anos, sucedido À mãe em direitos e importância, em tudo que era possível, e, sendo muito bonita e muito parecida com o pai, exercera sempre grande influência sobre ele; davam-se muito bem. As outras duas filhas tinham menor importância. Mary adquirira alguma notoriedade artificial ao tornar-se Sr.a Charles Musgrove; mas Anne, com uma elegância de espírito e doçura de carácter que lhe teriam granjeado a admiração de pessoas de discernimento, não era ninguém aos olhos do pai, nem dos da irmã; a sua palavra não tinha qualquer peso; era sempre obrigada a ceder - era apenas Anne.

Para Lady Russell, contudo, ela era uma afilhada predilecta e uma amiga muito querida e estimada. Lady Russell gostava delas todas; mas era apenas em Anne que ela imaginava que a mãe pudesse reviver. Alguns anos antes, Anne Elliot tinha sido uma rapariga muito bonita, mas cedo perdera a sua frescura; e, como mesmo no seu auge da sua beleza, o pai tinha visto muito pouco nela que fosse digno de admiração (tão diferentes dos dele eram os seus traços delicados e os suaves olhos escuros), agora, que ela estava murcha e magra, não podia haver nada neles que pudesse provocar o seu apreço. Ele nunca tivera muita esperança, e agora não tinha nenhuma, de ler o nome dela em qualquer outra página da sua obra preferida. Toda a esperança de uma aliança de termos de igualdade residia em Elizabeth; pois Mary tinha-se apenas ligado a uma respeitável família rural antiga com uma grande fortuna e tinha, portanto, concedido toda a honra sem ter recebido nenhuma; Elizabeth faria, mais cedo ou mais tarde, um casamento vantajoso. Acontece, por vezes, que uma mulher é mais bonita aos 29 anos do que dez anos antes; e, de um modo geral, se não se sofreu de doença ou ansiedade, é uma idade em que pouco encanto se perdeu. Era o que se passava com Elizabeth; ainda era a bela Menina Elliot que começara a tornar-se assim treze anos antes; poder-se- á , pois, desculpar Sir Walter por ele se esquecer da idade dela ou, pelo menos, considerá-lo apenas meio tolo, por julgar que ele próprio e Elizabeth conservavam a mesma frescura de sempre, no meio da ruína da beleza de todos os outros, pois ele via claramente como o resto da sua família e os seus conhecidos estavam a envelhecer. Anne, magra, Mary, grosseira, todos os rostos da vizinhança pioravam; e há muito que o rápido aumento dos pés de galinha nas têmporas de Lady Russell o entristecia.

Elizabeth não sentia exactamente a mesma satisfação pessoal que o pai. há treze anos que era senhora de Kellynch Hall, supervisionando e dando ordens com uma autoconfiança e decisão que nunca poderiam ter dado a ideia de ela ser mais nova do que realmente era. Durante treze anos, tinha feito as honras da casa, repreendendo, tomando a dianteira ao dirigir-se para o coche e seguindo imediatamente atrás de Lady Russell ao sair de todas as salas de visitas e de jantar do país. As geadas de treze Invernos tinham-na visto abrir todos os bailes dignos de registo que uma pequena localidade conseguia dar; e, durante treze Primaveras, as plantas tinham mostrado as suas flores quando ela viajava para Londres com o pai, para disfrutar, uma vez por ano, das diversões do grande mundo. Ela lembrava-se de tudo isto, tinha consciência de ter 29 anos, o que lhe provocava alguma pena e apreensão. Sabia que ainda era muito bonita; mas sentia os anos perigosos aproximarem-se, e gostaria de ter a certeza de que um verdadeiro baronete iria pedir a sua mão dentro de um ano ou dois. Nessa altura, talvez voltasse a pegar no livro dos livros com tanto prazer como nos anos da sua juventude; mas, naquele momento, ela não gostava dele. Deparar-se constantemente com a data do seu nascimento e não ver nenhum casamento à frente desta excepto o de uma irmã mais nova tornavam o livro um mal; e, mais de uma vez, depois de o pai o ter deixado aberto em cima da mesa a seu lado, ela tinha-o fechado e empurrado para longe, desviando os olhos. Além disso, ela sofrera uma desilusão que aquele livro, especialmente a história da sua família, lhe fazia sempre recordar.

O presumível herdeiro, o mesmo William Walter Elliot, Esq., cujos direitos tinham sido tão generosamente apoiados pelo pai, tinha-a desiludido. Desde menina, desde que soubera que, se não tivesse irmãos, ele seria o futuro baronete, que ela tencionava casar-se com ele; e o pai sempre quisera que ela o fizesse. Eles não o tinham conhecido em pequeno, mas, pouco depois da morte de Lady Elliot,

Sir Walter esforçara-se por se aproximar dele e, embora os seus esforços não tivessem sido recebidos com calor, ele insistira em fazê-los, atribuindo a falta de entusiasmo à timidez da juventude; e, numa das viagens de Primavera a Londres, quando

Elizabeth acabara de desabrochar, o Sr. Elliot fora-lhe forçosamente apresentado.

Ele era, nessa altura, muito jovem e iniciara recentemente os seus estudos de Direito. Elizabeth achara-o extremamente simpático, e todos os planos a favor dele tinham sido reforçados. Ele fora convidado a ir ao Solar de Kellynch; falaram nele e esperaram-no o resto do ano, mas ele nunca apareceu. Na Primavera seguinte, encontraram-no de novo na cidade, acharam-no igualmente simpático, e foi mais uma vez encorajado, convidado e esperado e, novamente não apareceu; as notícias seguintes foram que ele se tinha casado. Em vez de agir de acordo com a linha traçada para o herdeiro da casa de Elliot, ele comprara a independência unindo-se a uma mulherárica, de nascimento inferior.

Sir Walter ficara ofendido. Como chefe da família, ele achava que deveria ter sido consultado, especialmente depois de o ter acompanhado em público:

- Porque nós devemos ter sido vistos juntos - comentou ele -, uma vez no Tattersal e duas vezes no trio da Casa dos Comuns

- O seu desagrado foi manifestado, mas, aparentemente, pouca importância lhe foi atribuída. O Sr. Elliot não tentou apresentar quaisquer desculpas nem mostrou qualquer interesse em ser notado pela família; do mesmo modo, Sir Walter considerou que ele não merecia fazer parte dela; todas as relações entre eles tinham cessado. Ao fim de vários anos, esta embaraçosa história do Sr. Elliot ainda provocava raiva em Elizabeth, que tinha gostado do homem por ele próprio e ainda mais por ser o herdeiro do pai, cujo forte orgulho familiar via somente nele um partido adequado para a filha mais velha de Sir Walter Elliot. Não havia, de A a

X, um baronete que os seus sentimentos reconhecessem tão facilmente como seu igual. No entanto, ele tinha agido tão miseravelmente que, embora usasse actualmente (no Verão de 1814) uma fita de luto pela mulher, ela não punha a hipótese de ele merecer que voltasse a pensar nele. A vergonha do seu primeiro casamento talvez pudesse ser ultrapassada, pois não havia motivo para supor que o mesmo tivesse sido perpetuado através de quaisquer filhos, se ele não tivesse feito pior; mas ele fizera pior, conforme tinham sido informados pela habitual intromissão de amigos amáveis, e falara muito desrespeitosamente de todos eles, e com muito desdém do próprio sangue que lhe corria nas veias e do título que futuramente seria seu. Isto não podia ser perdoado. Estes eram os sentimentos e as sensações de Elizabeth Elliot; estas eram as preocupações que a incomodavam, a agitação que perturbava a monotonia, a elegância, a prosperidade e o vazio da cena da sua vida - estes eram os sentimentos que conferiam interesse a uma longa e rotineira residência numa pequena localidade, preenchendo o vazio que não podia ser ocupado comhábitos de serviço no estrangeiro nem com talentos ou feitos levados a cabo no país. Mas, agora, outra ocupação ou preocupação da mente começava a ser adicionada a estas. O pai estava a ficar aflito com falta de dinheiro. Ela sabia que, quando ele agora pegava no registo de baronetes, era para afastar do pensamento as pesadas contas dos comerciantes e as desagradáveis insinuações do Dr. Shepherd, seu procurador. O património Kellynch era bom, mas não igualava a concepção que Sir Walter fazia da magnificência exigida ao seu dono. Enquanto Lady Elliot fora viva, tinha havido método, moderação e economia, o que mantivera os gastos dentro dos seus rendimentos, mas, juntamente com ela, tinham morrido também todos esses bons princípios e, desde então, ele excedia-os constantemente. Não lhe tinha sido possível gastar menos; ele não tinha feito nada a não ser o que Sir Walter Elliot era obrigado a fazer; mas, embora não tivesse qualquer culpa, ele não só estava a endividar-se terrivelmente como ouvia esse facto referido com tanta frequência que se tornara inútil escondê-lo, mesmo parcialmente, da filha. Chegara a fazer algumas alusões a esse facto na Primavera anterior, na cidade; até tinha dito:

- Será possível economizar? Ocorre-te algum artigo em que possamos poupar? E Elizabeth, justiça lhe seja feita, tinha, no primeiro ardor de alarme feminino, começado a pensar seriamente no que poderia ser feito e propusera duas linhas de economia: cortar pois algumas acções de caridade desnecessárias e não remodelar a sala de visitas; a essas medidas ela acrescentou mais tarde a feliz ideia de não levar nenhum presente a Anne, como era costume fazerem todos os anos. Mas estas medidas, por muito boas que fossem, mostraram-se insuficientes para a extensão do mal, cuja magnitude Sir Walter se viu obrigado a confessar-lhe pouco depois. Elizabeth não tinha nada de maior eficácia a propor; sentiu-se, tal como o pai, maltratada e infeliz; e nenhum deles conseguiu imaginar meios de diminuir as despesas sem comprometer a sua dignidade nem sem se verem privados do conforto mínimo.

Sir Walter podia vender apenas uma pequena parte dos seus bens; mas, ainda que ele pudesse vender todas as suas terras, isso não teria feito qualquer diferença. Ele tinha concordado em hipotecar tanto quanto lhe fora possível, mas nunca concordaria em vender. Nunca faria recair tamanha vergonha sobre o seu nome. O património Kellynch seria transmitido completo e integral, tal como o recebera. Foi pedido aos seus dois amigos íntimos, o Dr. Shepherd, que vivia na cidade vizinha onde o mercado se realizava, e Lady

Russell, que viessem aconselhá-los; e, tanto o pai como a filha, pareciam esperar que um ou outro tivesse uma ideia que fizesse desaparecer os seus problemas e reduzisse as despesas sem que isso acarretasse o sacrifício da satisfação dos seus prazeres ou do orgulho. @Dois

O Dr. Shepherd, um advogado educado e cauteloso que, independentemente da sua opinião sobre Sir Walter, preferia que a palavra fosse dita por qualquer outra pessoa, pediu desculpa e recusou-se a dar quaisquer conselhos, limitando-se a pedir autorização para fazer uma referência implícita à excelente opinião de Lady Russell, cujo bom senso, ele sabia, iria aconselhar as medidas firmes que ele esperava ver finalmente adoptadas. Lady Russell foi apreensivamente solícita em relação ao assunto e pensou seriamente nele. Ela era uma mulher de capacidades mais sólidas do que rápidas, com grandes dificuldades em chegar a uma decisão sobre este caso, devido à contradição entre dois princípios fundamentais. Ela própria era de uma integridade rígida, com um delicado sentido de honra, mas estava igualmente desejosa de poupar os sentimentos de Sir Walter, preocupada com a boa reputação da família, tão aristocrática nas suas ideias sobre o que eles mereciam como qualquer pessoa sensata e honesta podia estar. Era uma mulher bondosa, caridosa, amável, capaz de amizades fortes, com uma conduta extremamente correcta, severa nas suas noções de decoro e com maneiras que eram consideradas um padrão da boa educação.

Ela possuía uma mente cultivada e era, de um modo geral, racional e coerente - tinha, porém, preconceitos no que dizia respeito à linhagem; atribuía grande valor à posição social e à importância, o que a tornava um pouco cega em relação aos defeitos dos que as possuíam. Ela própria, vviúva de um simples cavaleiro, atribuía à dignidade de baronete tudo o que ela merecia, e Sir Walter, além dos seus direitos como velho conhecido, como vizinho atencioso, senhorio amável, marido da sua querida amiga, o pai de Anne e das suas irmãs, era, no seu entendimento e devido às suas dificuldades actuais, merecedor de bastante simpatia e consideração, simplesmente devido ao facto de ser Sir Walter.

Tinham de economizar; disso não havia qualquer dúvida. Mas ela queria muito que isso acontecesse com o mínimo de sofrimento para ele e para Elizabeth. Fez planos de economia, fez cálculos exactos e fez o que ninguém mais pensara fazer: consultou Anne, que nunca era considerada pelos outros como tendo um interesse no caso. Consultou-a e foi, até certo ponto, influenciada por ela ao traçar o esquema de poupança que foi, por fim, submetido a Sir Walter. Todas as correcções de Anne se situavam do lado da honestidade, em oposição À importância. Ela queria medidas mais vigorosas, uma reforma mais completa, um pagamento da dívida mais rápido, um maior tom de indiferença por tudo o que não fosse justiça e igualdade.

- Se conseguirmos convencer o teu pai a fazer tudo isto - disse Lady Russell, passando os olhos pela folha de papel -, muito poderá ser feito. Se adoptar estas normas, dentro de sete anos estará livre de dívidas; e espero que possamos convencê-lo, a ele e a Elizabeth, de que Kellynch possui uma respeitabilidade própria que não será afectada por estas reduções; e que, por ele agir como um homem de princípios, a verdadeira dignidade de Sir Walter Elliot não ficará absolutamente nada diminuída aos

não o que muitas das nossas famílias jáfizeramou deveriam

olhos das pessoas sensatas. O que ele estará a fazer, de facto, se ter feito? O seu caso não é único; e é a singularidade que constitui a pior parte do nosso sofrimento, tal como sucede com a nossa

Temos de ser severas e firmespois, afinal de contas, quem

conduta. Tenho grande esperança de que consigamos fazê-lo. contrai dívidas tem de as pagar; e, embora os sentimentos de um cavalheiro e chefe de família como o teu pai mereçam o maior respeito, mais respeito merece ainda o bom nome de um homem honesto. Este era o princípio que Anne queria que o pai seguisse e que os amigos lhe aconselhassem. Ela considerava uma obrigação essencial pagar as dívidas aos credores com a maior rapidez que as economias globais conseguissem levar a cabo, e achava que nenhum outro comportamento seria digno. Ela queria que isso fosse recomendado e considerado um dever. Ela atribuía grande valor à influência de Lady Russell e, quanto ao elevado grau de sacrifício que a sua própria consciência exigia, sabia que talvez fosse tão difícil convencê-los a efectuar uma reforma completa como meia reforma. O que ela conhecia do pai e de Elizabeth levavam-na a pensar que o sacrifício de um par de cavalos seria tão doloroso como o de dois, e assim por diante, ao longo de toda a lista das suaves reduções de Lady Russell.

Pouco importa qual teria sido a reacção às exigências mais rígidas

criados, cavalos, mesareduções e restrições em tudo.

de Anne. As de Lady Russell não tiveram qualquer êxito - eram impossíveis, insuportáveis. ®Quê? Retirar todos os confortos da vida? Viagens, Londres,

Deixar de viver sem sequer o decoro de um criado pessoal! Não, ele preferia abandonar imediatamente o Solar de Kellynch a permanecer em condições tão vergonhosas." - Abandonar Kellynch Hall.

O Dr. Shepherd pegou-lhe imediatamente na palavra. Ele tinha um grande interesse na realidade das economias de Sir Walter e estava perfeitamente convencido de que estas não poderiam ser feitas sem uma mudança de residÊncia. Uma vez que a ideia tivera início exactamente no local que devia ditar o comportamento, ele não sentia qualquer escrúpulo, disse, em confessar que a sua opinião era exactamente essa. Não lhe parecia que Sir Walter pudesse alterar materialmente o seu estilo de vida numa casa em que tinha de manter um tal carácter de hospitalidade e dignidade tradicionais. Em qualquer outro local, Sir Walter poderia pensar e proceder como quisesse; e, qualquer que fosse o modo como ele dirigisse a sua casa, seria considerado um padrão de estilo de vida.

Sir Walter iria abandonar Kellynch Hall; e, depois de mais alguns dias de dúvida e indecisão, a questão do local para onde ele iria ficou decidida, e o primeiro esboço desta importante alteração foi traçado.

Havia três alternativas, Londres, Bath, ou outra casa no campo. Todos os desejos de Anne eram em favor desta última. A sua ambição era uma casa pequena na mesma região, onde ainda pudessem contar com a companhia de Lady Russell, estar perto de Mary e ter, por vezes, o prazer de ver o relvado e os bosques de Kellynch. Mas a sorte habitual de Anne estava atenta e destinara-lhe algo muito diferente dos seus desejos. Ela não gostava de Bath e achava que Bath não lhe fazia bemá- e iria viver em Bath.

A princípio, Sir Walter pensara mais em Londres, mas o Dr. Shepherd pensava que não era possível confiar nele em Londres, e fora suficientemente hábil para o dissuadir e fazer optar por Bath. Era um local muito mais seguro para um cavalheiro com os seus problemas; ali, poderia ser importante com relativamente pouca despesa. Duas vantagens concretas de Bath sobre

Londres tinham, obviamente, sido acentuadas; a sua distância de apenas cinquenta milhas de Kellynch, o que era mais conveniente, e o facto de Lady Russell passar sempre lá parte do

Inverno; e, para grande satisfação de Lady Russell, cuja opinião sobre a projectada mudança fora, desde o início, a favor de

Bath, Sir Walter e Elizabeth foram levados a acreditar que, com a mudança, não iriam perder importância nem deixariam de se divertir. Lady Russell sentiu-se obrigada a opor-se aos desejos da sua querida Anne. Seria esperar demasiado que Sir Walter passasse a viver numa casa pequena na sua própria região. A própria Anne teria sentido uma humilhação maior do que antecipara, e a mesma teria sido terrível para os sentimentos de Sir Walter.

E, com respeito ao facto de Anne não gostar de Bath, ela considerava-o um preconceito e um erro, resultante, em primeiro lugar, da circunstância de ter andado lá na escola durante três anos, depois da morte da mãe, e, em segundo lugar, de ela não se ter sentido muito bem-disposta no único Inverno que lá passara com ela. Lady Russell gostava de Bath e achava que era um bom lugar para todos eles; e, quanto à saúde da sua jovem amiga, todo o perigo seria evitado se ela passasse todos os meses quentes em sua companhia em Kellynch Lodge; e era, de facto, uma mudança que seria benéfica tanto para a saúde como para o espírito. Anne tinha estado demasiado pouco tempo longe de casa, tinha visto demasiado pouco. Ela não era uma pessoa muito alegre. Um pouco mais de convívio far-lhe-ia bem. Ela queria que Anne fosse mais conhecida.

O facto de não ser aconselhável que Sir Walter se instalasse em qualquer outra casa na mesma região foi certamente acentuado por uma parte, uma parte muito objectiva do esquema, que, felizmente, fora realçada no início. Ele não só teria de abandonar a casa mas também iria vê-la nas mãos de outras pessoas; uma prova de coragem que tinha sido excessivamente dura para espíritos mais fortes do que o de Sir Walterá- Kellynch iria ser alugada. Isto era, porém, um segredo bem guardado que não era referido fora do seu próprio círculo.

Sir Walter não suportaria a humilhação de ser tornada pública a sua intenção de alugar a casa. O Dr. Shepherd mencionara uma vez a palavra ®anúncio, mas nunca mais ousou referir-se ao assunto; Sir Walter rejeitou a ideia de ela ser oferecida sob qualquer forma; proibiu a mais pequena alusão ao facto de ele ter essa intenção; e ele só a alugaria se tal lhe fosse espontaneamente solicitado por um candidato excepcional, estipulando ele as condições, e como grande favor.

Como surgem depressa razões para concordarmos com aquilo que nos agrada! Lady Russell tinha outra excelente razão para se sentir extremamente satisfeita por Sir Walter e a sua família irem sair da região. Elizabeth iniciara recentemente uma grande amizade que ela desejava ver interrompida. Era com uma filha do Dr. Shepherd que tinha regressado para casa do pai após um casamento infeliz, sobrecarregada com dois filhos. Era uma mulher jovem e inteligente, que compreendia a arte de agradar; a arte de agradar, pelo menos, no Solar de Kellynch; e que se insinuara tão bem junto da Menina Elliot, que jálá estivera hospedada mais de uma vez, apesar de todos os conselhos de Lady Russell, que considerava aquela amizade bastante despropositada.

Na realidade, Lady Russell tinha muito pouca influência junto de Elizabeth, e parecia gostar dela, mais por querer do que por ela o merecer. Nunca recebera dela mais do que uma atenção superficial, nada para além de formalidades condescendentes, nunca tinha conseguido convencê-la a mudar de ideias. Sensível à injustiça e ao egoísmo dos preparativos que deixavam Anne de fora, ela tinha tentado, repetidas vezes, que Anne fosse incluída na visita a Londres, e, em muitas outras ocasiões, tentara dar a Elizabeth o benefício do seu melhor discernimento e experiência - mas sempre em vão. Elizabeth fazia como queria - e nunca se opusera tão decididamente a Lady Russell como na escolha da

Sr.a Clay, afastando-se da companhia de uma irmã tão boa e manifestando afecto e confiança por uma mulher que deveria ser apenas objecto de delicadeza distante. Sob o ponto de vista da posição social, a Sr.a Clay era, na opinião de Lady Russell, muito inferior, e, quanto ao carácter, ela considerava-a uma companhia muito perigosa; e uma mudança que deixasse a Sr.a Clay para trás e colocasse ao alcance da

Menina Elliot uma variedade de companhias mais adequadas constituía, portanto, um objectivo primordial. @Três

- Peço autorização para observar, Sir Walterá- disse o Dr. Shepherd uma manhã no Solar de Kellynch, pousando o jornal -, que a conjuntura actual nos é muito favorável. A paz fará desembarcar os nossos oficiais da Marinha, ricos. Vão todos querer casa. Não podia haver melhor altura, Sir Walter, para escolher inquilinos, inquilinos muito responsáveis. Fizeram-se muitas fortunas respeitáveis durante a guerra. Se um almirante rico nos aparecesse, Sir Walter...

- Ele seria um homem de sorte, Shepherdá- respondeu Sir Walterá-, É tudo o que eu tenho a dizer. Para ele, o Solar de

(Parte 1 de 6)

Comentários