Ergonomia

Ergonomia

(Parte 1 de 8)

CONTEMPORÂNEA DO RIO DE JANEIRO (Pós-Graduação Lato Sensu – 540 horas)

Programa de Engenharia de Produção do COPPE

Programa de Engenharia Mecânica do COPPE

Departamento de Engenharia Industrial da E/UFRJ

Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da FAU/UFRJ Associação Brasileira de Ergonomia – ABERGO

INTRODUÇÃO À ERGONOMIA Prof. Mario Cesar Vidal, Dr. Ing.

Introdução à Ergonomia Página 2 Prof. Mario Cesar Vidal

GENTE - Grupo de Ergonomia e Novas Tecnologias CESERG - Curso de Especialização Superior em Ergonomia.

1 O QUE É ERGONOMIA3
1.1 CENAS DA VIDA DIÁRIA3
1.2 UMA DISCIPLINA ÚTIL, PRÁTICA E APLICADA4
1.3 PROBLEMAS RETROSPECTIVOS, PROSPECTIVOS E EMERGENTES6
1.4 A EXPLOSÃO DA DEMANDA DE ERGONOMIA6
2 A FORMAÇÃO HISTÓRI CA DA ERGONOMIA7
2.1 PRIMEIRA DEFINIÇÃO DE ERGONOMIA7
2.2 ERGONOMIA NO PERÍODO CLÁSSICO8
2.3 ERGONOMIA NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO8
2.4A ERGONOMIA NA I GUERRA MUNDIAL : IMPORTÂNCIA DOS FATORES HUMANOS9
2.5A ERGONOMIA NA RECONSTRUÇÃOEUROPÉIA: A ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO10
3 AS ERGONOMIAS CONTEMPORÂNEAS10
3.1 INTERVENÇÃO ERGONÔMICA1
3.2 MACROERGONOMIA12
3.3 ANTROPOTECNOLOGIA13
4 CAMPO CONTEMPORÂNEO DA ERGONOMIA15
4.1 ERGONOMIA FÍSICA16
4.2 ERGONOMIA COGNITIVA19
4.3 ERGONOMIA ORGANIZACIONAL2
5 FOCO E CRITÉRIOS DA ERGONOMIA25
5.1 FOCO25
5.2 CRITÉRIOS PARA A ERGONOMIA25
6 AÇÃO ERGONÔMICA26
6.1QUANTO À ABORDAGEM: ERGONOMIA DE PRODUTO E DE PRODUÇÃO28
6.2QUANTO À PERSPECTIVA : ERGONOMIA DE CONCEPÇÃO E DE INTERVENÇÃO29
6.3ERGONOMIA DE CORREÇÃO, ENQUADRAMENTO, REMANEJAMENTO E/OU MODERNIZAÇÃO31
7CONCLUSÃO: UMA DISCIPLINA NOVA E POUCO TRIVIAL3
8 EXERCÍCIOS34
BIBLIOGRAFIA35

Sumário

Figura 1 : Ergonomia como uma tecnologia de interfaces:4
Figura 2: Interdisciplinaridade da Ergonomia (Hubault, 1992, modificado por Vidal, 1998)5
Figura 3 : Esquema de uma Intervenção Ergonômica (Vidal, 1999)1
Figura 4 : Modelo sociotécnico em que se fundamenta a Macroergonomia12
Figura 5 : Campos da Ergonomia Contemporânea16
Figura 6 : O "caldeirão" da Fadiga de Grandjean17
Figura 8 : Esquema elementar de uma organização23
Figura 9 : As diferentes e complementares Ergonomias27
Figura 10 : Classificações da Ergonomia28
Figura 1 : Processos de evolução tecnológica (Vidal, 1978)3

Figuras Figura 7 : Processo perceptivo, cognitivo e motor (Gagné, 1966, modificado por Vidal, 2000)20

Índice de quadros Quadro 1 - Principais disciplinas formadoras do pensamento ergonômico clássico.....................9

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Suponha um trabalhador diante de um microcomputador: monitor, teclado, mouse, mesa, assento formam um conjunto nem sempre harmônico. As pessoas trabalham com um 386, 486, Pentium, KM-6, rápidos, coloridos, em ar condicionado, em móveis Rodoflex by Cristina. Mas a pessoa se queixa de dores lombares, nas mãos, no pescoço. Alguém sabe explicar o porquê?

Vejamos uma grande confecção onde a produção acontece num galpão de grande porte.

Impera o ruído das máquinas de corte, pesponto, costura, acrescidos do calor resultante da própria edificação e das prensas de acabamento. Os resíduos têxteis formam uma poeira que reduz a iluminação geral obrigando a que cada posto tenha uma iluminação local que aumenta ainda mais a contrante1 térmica e compromete a qualidade do ar. O ambiente se caracteriza ainda pelo odor de tecidos novos, alguns com muito pouco tempo de saída da tinturaria. Esta indústria tem a certificação ISO-9000 e não entende porque recebeu uma notificação da DRT.

A vida diária pode vir a ser muito injusta com um motorista de caminhão de entregas, muitas vezes ofendido por pessoas que certamente ignoram que para além do acelerar e trocar marchas, freiar e estacionar, esta atividade possui dimensões físicas como carga e descarga - dimensões mentais complexas e urgentes como o estabelecimento de itinerários sob pressão do horário de entrega e face a contingências como engarrafamentos, outros caminhões de entrega... e tendo instâncias afetivas importantes, já tudo isso se dá entre “barbeiros, navalhas e mauricinhos”, tendo ao fundo o delicioso concerto urbano de buzinas, comentários sobre a sua masculinidade em tenor, contralto e sopranos, tudo isso traspassado pela “suavidade diáfana” de motores desregulados em funcionamento...

Estes relatos acerca de situações do cotidiano pessoal ou profissional de milhares de pessoas pelo mundo afora, revela que a atividade produtiva de homens e mulheres, jovens e idosos, sãos ou adoentados não é tão simples como possa parecer e que deve ser objeto de algum entendimento, de um estudo mais elaborado. E é isso a que se propõe a Ergonomia: produzir esse entendimento para que as mudanças possam ser feitas, os projetos mais bem elaborados e as decisões tecnológicas melhor assentadas. A saúde das pessoas, a eficiência dos serviços e a segurança das instalações estarão, a partir daí, sendo efetivamente incorporadas à vida das organizações.

Mas, o que é Ergonomia, efetivamente? Ergonomia, antes de mais nada, é uma atitude profissional que se agrega à prática de uma profissão definida. Neste sentido é possível falar de um médico ergonomista, de um psicólogo ergonomista, de um designer ergonomista e assim por diante. Esta atitude profissional advém da própria definição estabelecida pela Associação Brasileira de Ergonomia, com base num debate mundial:

A Ergonomia objetiva modificar os sistemas de trabalho para adequar a atividade nele existentes às características, habilidades e limitações das pessoas com vistas ao seu desempenho eficiente, confortável e seguro (ABERGO, 2000).

Esta definição que coloca finalidades - modificar os sistemas de trabalho - propósitos - adequar a atividade às características, habilidades e limitações das pessoas - e critérios - eficiência, conforto e segurança - necessita ser complementada por uma outra, que estabeleça qual a tecnologia a que a Ergonomia está referida ou que possua um referente de suas finalidades, propósitos e critérios. Esta tecnologia é a tecnologia de realização2 de interfaces3 entre as pessoas e

1 Ver definição deste termo mais adiante. Por ora, admitamos ser um contrante, um risco ergonômico ainda não identificado. 2 Uma realização de engenharia consiste num processo contínuo e integrado de concepção, construção e manutenção de um sistema de produção.

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os sistemas, melhor dizendo, estabelecendo uma relação de adequação entre os aspectos humanos presentes na atividade de trabalho e os demais componentes dos sistemas de produção : tecnologia física, meio-ambiente, softwares, conteúdo do trabalho e organização. Qualquer forma de interação entre o componente humano e os demais componentes do sistema de trabalho constituir-se-á em uma interface, sem que tenhamos necessariamente uma boa interface. As boas interfaces (adequadas) atenderão de forma conjunta, integrada e coerente os critérios de conforto, eficiência e segurança.

Figura 1 : Ergonomia como uma tecnologia de interfaces:

Em sua atividade de trabalho o ser humano interage com os diversos componentes do sistema de trabalho: com os equipamentos, instrumentos e mobiliários, formando interfaces sensoriais, energéticas e posturais, com a organização e o ambiente formando interfaces ambientais, cognitivas e organizacionais. O ser humano, com seu organismo, sua mente e sua psiquê realiza essas interações de forma sistêmica, cabendo à Ergonomia modelar essas interações e buscar formas de adequação para o desempenho confortável, eficiente e seguro face às capacidades, limitações e demais características da pessoa em atividade.

3 Interfaces significam os pontos de contato e troca entre dois sistemas. Num sistema homem-computador as interfaces mais óbvias são as interfaces de informação (monitor, sons, LED’s, etc.) e as de comando (teclado, mouse, joystick, trackball, etc.).

4Empregaremos muito este conceito de dimensões. O termo está sendo tomado no sentido topológico, segundo o qual uma entidade pode ser decomposta, rebatida ou derivada em dimensões constituintes, a partir de um contexto de referência. Assim um ponto P se localiza no espaço euclidiano por sua distância à origem numa dada trajetória T. Esta trajetória pode ser complexa (curva reversa, por exemplo). Neste caso projetar a trajetória T em eixos retilíneos X, Y e Z simplifica o cálculo e a posição pode ser expressa em termos de valores x ,y e z tomados sobre aqueles eixos. Neste sentido X, Y e Z são os domínios das dimensões x, y e z de que se compõe a posição do ponto P, uma forma mais fácil de trabalhar do que uma distancia d sobre uma trajetória complexa T.

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A superação desse duplo registro, deste paradoxo aparente está numa compreensão da Ergonomia como disciplina útil, prática e aplicada:

· Como disciplina útil, através de seus procedimentos de modelagem da realidade do uso e a incorporação de conhecimentos para a melhoria das interfaces entre os componentes humanos e os demais constituintes do sistema de produção, a Ergonomia tem tido bastante sucesso em tratar de problemas onde outras abordagens tem deixado a desejar.

• Como disciplina científica a Ergonomia através do estudo das capacidades e limitações e demais características humanas necessárias para o projeto de boas interfaces, assim como busca modelar a atividade de trabalho para garantir a qualidade operacional deste projeto. Para tanto ela situa num cruzamento interdisciplinar entre várias disciplinas como Fisiologia, a Psicologia, a Sociologia, a Lingüística e práticas profissionais como a Medicina do Trabalho, o Design, a Sociotécnica e as Tecnologias de estratégia e organização. Toda esta interdisciplinaridade se centra no conceito de atividade de trabalho, o verdadeiro objeto da Ergonomia (figura 2).

Figura 2: Interdisciplinaridade da Ergonomia (Hubault, 1992, modificado por Vidal, 1998) A ergonomia como interdisciplinaridade interage com várias disciplinas no campo das ciências da vida, técnicas, humanas e sociais. Seus conteúdos se orientam para o design, arquitetura e engenharia, cuja inserção nesses quadrantes é basicamente a mesma.

• Como disciplina prática a ergonomia busca encaminhar soluções adequadas aos usuários, operadores e à realidade das empresas e organizações onde as intervenções ergonômicas têm lugar.

• Como disciplina aplicada ela traz os resultados dos tratamentos científicos de modelagem da realidade e de levantamento do estado da arte de problema ao desenvolvi-

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Medicina do Trabalho

Sociologia Sociotécnica

Estratégia

Higiene Industrial Segurança do TrabalhoFisiologia

Psicologia Linguística

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mento de tecnologia de interfaces para a concepção, análise, testagem, normatização5 e controle dos sistemas de trabalho. São assuntos aplicados de ergonomia, portanto a concepção de sistemas de trabalho sob o ponto de vista da atividade das pessoas que nele se integram, de produtos sob o ponto de vista de uso e manuseio pelos adquirentes, de sistemas informatizados sob a ótica da usabilidade (interatividade facilitada, amigabilidade, customização etc.) de estruturas organizacionais do ponto de vista dos que nela trabalham e assim por diante.

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