a clinica da urgencia psicologica - contribuiçoes da abordagem centrada na pessoa e da teoria do caos

a clinica da urgencia psicologica - contribuiçoes da abordagem centrada na pessoa...

(Parte 1 de 5)

UFRJ 2003

Márcia Alves Tassinari

Universidade Federal do Rio de Janeiro – Doutorado em Psicologia

Orientadora: Élida Sigelmann Doutora em Psicologia

Rio de Janeiro 2003

Márcia Alves Tassinari

Tese submetida ao corpo docente do Instituto de Psicologia da Universidade

Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor.

Aprovada por:

Prof. Élida Sigelmann - Orientadora Doutora em Psicologia

Prof. Rogério Christiano Buys Doutor em Psicologia

Prof. Ana Maria Lopez Calvo Feijoo Doutora em Psicologia

Prof. Vera Engler Cury Doutora em Saúde Mental

_ Prof. Henriette Tognetti Penha Morato Doutora em Psicologia

Prof. Carlos Américo Pereira Doutor em Psicologia

Rio de Janeiro 2003 iv

Tassinari, Marcia Alves

A Clínica da Urgência Psicológica:

Contribuições da Abordagem Centrada na Pessoa/ Márcia Alves Tassinari. Rio de Janeiro: UFRJ/ Instituto de Psicologia, 2003. x. 231p. Tese – Universidade Federal do Rio de

Janeiro, Instituto de Psicologia. 1. Plantão Psicológico. 2. Urgência. 3.

Abordagem Centrada na Pessoa. 4. Teoria do Caos e da Complexidade. 5. Tese (Doutorado – UFRJ/ Instituto de Psicologia). I. Título

Dedico esse trabalho ao meu pai e a meu filho por terem amorosamente acolhido, de maneiras tão diferentes, às minhas urgências e também por terem me ensinado, cada um de seu jeito, a ser uma boa cuidadora das urgências deles.

vi

Esse trabalho não teria sido concluído se não fosse o amor de muitas pessoas que têm me servido como guia e inspiração fértil ao longo de minha jornada. A todos minha eterna gratidão e reconhecimento. Alguns desempenharam um papel especial na elaboração dessa tese, os quais quero destacar:

Rodrigo, meu filho que, silenciosamente, me entusiasma e me ajuda a dar sentidos em minha vida;

Meus pais que me ensinaram a dar todos os primeiros passos e sempre me levantaram das quedas;

Meus companheiros do Centro de Psicologia da Pessoa, Rogério, Magale e Carlos que têm sido incondicionais;

Minha orientadora, Dra. Elida Sigelmann, pelo entusiasmo com que abraçou as minhas viagens epistemológicas;

Meus mestres de direito e de fato, Rogério Buys, Carl Rogers, John Wood, Raquel Wrona, Jaime Doxsey, Luiz Alfredo Millecco, Elias Boainain e Henriette Morato.

Às amigas que tanto me apoiaram em momentos cruciais desses últimos quatro anos, Tininha, Mônica, Salete e Ritinha;

Ao companheiro Guilherme que, com suas idas e vindas, tem me ensinado a ser tolerantemente criativa frente às incertezas;

Ao amigo Marquinhos que, paciente e efetivamente, formatou e revisou esse trabalho; Á revisora e amiga Clementina Marconi pela sua paciência e sábias sugestões.

Aos profissionais que me emprestaram suas experiências através das entrevistas, Marcos, Carolina, André e Heloísa;

Aos meus clientes de psicoterapia e do Plantão Psicológico bem como meus alunos, pelas aprendizagens que me propiciaram;

Às pessoas e instituições que trouxeram ruídos e perturbações em minha vida e que me ensinaram a viver no limite, mas também aguçaram minha capacidade de lidar criativamente com as urgências;

À Gestão da X Plenária do Conselho Regional de Psicologia do Estado do Rio de Janeiro, pelos momentos de turbulência e insensatez que me mostraram as facetas frágil, obscura e gananciosa do ser humano, ajudando-me a expandir minha capacidade de vivenciar o medo, a raiva e o desamparo, sem jamais perder a ternura e a crença nas possibilidades humanas saudáveis. Nessa instituição encontrei também pessoas dignas que me apoiaram e acolheram minhas intensas urgências: a maioria dos funcionários, além dos ex-conselheiros Carlos Valvano, Cristina Cochrane, Clayse Moreira e Silva, Gustavo Castañon, Marcio Dantas, Dora Neide Cerqueira, Rachel Baptista, Antonio Valério e Sônia Fazenda.

vii RESUMO

Este estudo é um desdobramento das questões suscitadas na dissertação de mestrado em relação à fertilidade e potencialidade dos atendimentos em Plantão Psicológico, propondo uma clínica da urgência psicológica fundamentada na Abordagem Centrada na Pessoa e nos novos paradigmas da ciência, especialmente na Teoria do Caos.

A inspiração básica surgiu a partir da reflexão em relação aos ruídos no processo psicoterápico, isto é, em relação ao alto índice de absenteísmo e de abandono precoce (até a terceira sessão), entendendo-se essas interferências, de início, como descontinuidade do processo de mudança psicológica.

O presente trabalho envolve quatro movimentos. Inicialmente, apresenta-se a nova modalidade de atenção psicológica, através do surgimento, desenvolvimento e aplicação em diferentes contextos do Serviço de Plantão Psicológico. No sentido de buscar as dimensões significativas que permeiam esses recentes trabalhos, entrevistaram-se quatro plantonistas que explicitaram suas principais vivências e aprendizagens significativas em cinco contextos: institucional para adolescentes, jurídico, institucional militar, escolar e clínico. Esses depoimentos foram literalizados e analisados qualitativamente, através de uma das modalidades de análise fenomenológica, objetivando-se esboçar um fio condutor processual.

O segundo movimento oferece a fundamentação teórica utilizada nos atendimentos em

Plantão Psicológico, a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), através de sua contextualização, evolução, desenvolvimento e inserção no cenário brasileiro. Os principais conceitos que norteiam as atividades da ACP são contemplados com ênfase no postulado central, a tendência Atualizante/Formativa e na condição da consideração positiva incondicional, consideradas balizadores essenciais no acolhimento da urgência psicológica, no momento exato da necessidade. A questão da promoção da saúde é incluída como referencial potente na compreensão do sofrimento humano.

Em função da incompletude do paradigma mecanicista e da necessidade de fundamentar a importância do momento inicial do processo de mudança psicológica, introduz-se o terceiro movimento, apresentando-se as principais idéias dos novos paradigmas da ciência. Priorizam-se as propostas da Teoria do Caos em sua intenção de trabalhar com fenômenos complexos que apresentam dependência em relação às condições iniciais. Utilizam-se as ênfases desse paradigma emergente como potente metáfora para compreender de que maneira esse momento inicial pode ser significativo a longo prazo, trazendo alterações de perspectivas, muitas vezes deflagradas em uma única consulta psicológica. O caráter de vanguarda da ACP é explicitado, mostrando-se que ela já estava inserida nesse novo paradigma, especialmente a partir da ampliação da tendência Atualizante para Tendência Formativa, proposta por Carl Rogers no final da década de 70. Outras reflexões a respeito da utilização da Teoria do Caos e da Complexidade em Psicologia são também referendadas.

A parte central compõe o quarto movimento, apresentando uma clínica da urgência psicológica como sendo a intenção básica dos atendimentos em Plantão Psicológico. Para tal, são apresentadas outras modalidades de atenção psicológica a curto prazo, com as diferentes denominações e fundamentações teóricas que ocupam-se também de receber pessoas em crise, em momentos de emergência ou urgência. A expressão urgência psicológica foi escolhida para minimizar o viés psicopatologizante, orientando essa clínica para a promoção da saúde em qualquer circunstância. Nesse movimento apresentam-se pesquisas sobre os resultados das psicoterapias de curta e longa duração, explicitando as controvérsias, limitações e possibilidades das mesmas, o que convida a repensar em outras modalidades de atendimento psicológico para além do consultório. A título de conclusão, são esboçadas s principais reflexões que este estudo estimulou, especialmente em relação a inserção da Psicologia nas instituições e comunidades, bem como sugestões para a formação do psicólogo como agente social de mudança.

viii ABSTRACT

This study unfolds the questions aroused within the master dissertation regarding the fertility and potentiality experienced at the Psychological Emergency Attendance, aiming for its theoretical foundation in the Person-Centered Approach as well as in the new science paradigms, especially Chaos Theory.

The basic inspiration comes from consideration on psychotherapy noises, which are high levels of dropouts, absenteeism and psychotherapy interruption (up to the third session). It is understood that these interferences break the psychological change process.

This thesis encompasses four movements. It begins with the new psychological attention through the Psychological Emergency Attendance’s start point, development and different contexts applications. Trying to grasp the meaningful dimensions that permeate these recent works, four professionals were interviewed. They expressed their meaningful inner experiences and learning within five contexts: adolescents’ institutional, juridical, military’s institutional, school and clinic. Their interviews were edited and received qualitative treatment through one kind of phenomenological analyses aiming to draw a process line thread.

The second movement offers an overview of the Person-Centered Approach (PCA), the theoretical foundation frame of reference, as well as its contextualization, evolution, development and insertion in the Brazilian scenario. The main PCA concepts that inspires all of its applications are presented with a special emphasis on the Actualizing/Formative Tendency and the unconditional positive regard condition, regarded as the core frame in the psychological urgency welcoming. The health promotion issue is included as a powerful reference to understand the human suffering.

Due to the mechanicist paradigm insufficiency and also from the urgency to deepen the understanding of the psychological change initial moment, the study unfolds the third movement, presenting the new sciences paradigms main ideas. Here it is stressed the Chaos Theory proposals in its intention to deal with complex phenomena which present dependence on their initials conditions. The emergent paradigm main notions are displayed as potent metaphors to understand how the initial moment can be meaningful in the long term, which may account for perspectives changes even during only one psychological session. The PCA vanguard characteristic is justified specially from the Actualizing extended to the Formative Tendency conception, proposed by the late Carl Rogers during the 70’s. Different proposals using Chaos Theory and Complexity Thought in Psychology are also referred to.

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