Livro - a forma do engenheiro inovador

Livro - a forma do engenheiro inovador

(Parte 5 de 11)

Situações semelhantes ocorrem em Oxford e Cambridge (RU), que formaram os administradores do Império Britânico (inclusive em engenharia) a partir das letras clássicas. Poderíamos citar este perfil como o de "engenheiro de formação humanística e base científica". Fugimos da expressão sintética "ampla base cultural" porque o termo "cultural" costuma ser entendido como isolado da cultura científica.

Os egressos destas escolas atingem cargos de prestígio (basta consultar suas bem organizadas listas de ex-alunos), mas são orientados para, após os 3 ou 4 anos dispendidos na obtenção do grau, preparar um PhD28, eventualmente suavizado por um MSc ou um MBA. De fato, a maior parte dos norte-americanos preparando um PhD na área de engenharia são oriundos das universidades de pesquisa, fato que já foi – ingenuamente - usado para inferir sua qualidade. Isto indica apenas que os cursos não são pensados como terminais, mas como etapas em uma formação mais profunda, levando à gerência ou à pesquisa científica ou tecnológica. Ao contrário da formação oferecida pelas demais escolas de engenharia, são orientados para preparar uma classe dirigente com embasamento técnico. A formação técnica profunda poderá vir na pós-graduação, se este for o interesse do aluno. Neste caso, o aluno estaria recuperando a formação francesa, na forma 3+2 (três anos de formação geral e 2 anos de formação mais especializada).

Olhando o currículo das escolas de engenharia (não universitárias) britânicas e de boa parte das escolas norte-americanas não classificadas como universidades de pesquisa, vemos uma orientação muito técnica, sem formação

Ver http://www.carnegiefoundation.org/Classification Na lista de 2004 para cursos de doutorado (extensivos), há 103 universidades (contadas por campuses) públicas e 49 universidades privadas não lucrativas, entre as quais os campus da Un. of California, a Colorate State Un., a Un. of Florida, a Pennsylvanis State Un., a Texas A&M Un., o California Institute of Technology, a Stanford Un., a Yale Un., a Un.of Chicago, a Loyola Un. of Chicago, a Harvard Un., o MIT, a Princeton Un. (a escolha feita na lista completa é arbitrária, apenas mostra exemplos). Na classificação há também colégios especializados, inclusive de engenharia. No brasão atual foi adicionado um personagem feminino, por questões de political correctness. No texto de apresentação do MIT (ver seu site), já citado, comenta-se que 38% dos egressos de 2001 do MIT passaram à pós-graduação. Na mesma página é comentado que "management and technical consulting firms and investment banking firms are among the top employers recruiting Institute graduates", o que explica a formação fornecida e o desinteresse pela especialização técnica.

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação científica: o "engenheiro tecnólogo de formação curta" já citado. Este é o engenheiro que passa diretamente a um emprego na indústria. Mais tarde, por questões de prestígio, poderá buscar complementar sua formação com um MSc ou um MBA, onde estudará ciências básicas ou ganhará uma formação gerencial, embora o número total dos que sigam este caminho seja bem menor que os estudantes de pós-graduação formados nas universidades de pesquisa. A definição desta formação é dada por: "Foco na prática de engenharia; projeto de acordo com padrões e procedimentos bem definidos, uso limitado da matemática; muitos professores com experiência industrial e/ou fortes laços com a indústria"29.

O estado da Califórnia, EU, organizou oficialmente seu sistema de formação em três níveis30. Na base, um enorme conjunto de colleges, voltados para a formação técnica (isto é, para formar os engenheiros tecnólogos de formação curta acima descritos) – 1,4 milhões de alunos em 1997. No meio, um conjunto de escolas (em torno da California State University) voltadas para a formação de professores de escolas de engenharia, onde o contato com a pesquisa e desenvolvimento é mais habitual, a formação científica mais aprimorada – 340.0 alunos. Desses espera-se um MSc, mas não necessariamente a dedicação à pesquisa. No topo, algumas universidades de pesquisa (em torno da University of California, incluindo a CalTech, Stanford e mais algumas universidades de pesquisa privadas), dedicadas a formar os cientistas e pesquisadores que deverão alimentar o parque industrial e os institutos de pesquisa californianos. Espera-se que estes sempre se dirijam à um PhD – isto é, o curso de graduação não é visto como terminal, admitindo um currículo mais livre e mais voltado para a ciência. A notar que há a possibilidade de transferência de alunos entre um grupo de escolas e outro, de acordo com concursos ou recomendações.

O custo por aluno é muito mais alto no nível do topo que no nível intermediário, e mais alto ainda em relação ao custo por aluno dos colleges. Desta forma há uma distribuição de custos – se todos os alunos recebessem uma educação para a pesquisa, o custo total ultrapassaria o orçamento do estado, um dos mais ricos daquele país! O prestígio social aumentando do college à universidade de pesquisa, a seletividade das últimas é muito grande, assim como suas exigências. Porém, assinala o governo do estado, a atração dos futuros professores pelo prestígio da pesquisa tem gerado um problema que reduz a qualidade da formação geral: os professores dos college acabam por se dedicar à pesquisa como atividade principal, e os que não conseguem passar ao grupo do topo acabam desmotivados.

Recentemente, na Grã-Bretanha, o Engineering Council britânico, órgão oficial criado por uma royal charter, passou a designar a formação (degree) em três tipos31: ¾ technician engineer (EngTech), um técnico especializado, não sendo considerado um "higher education degree";

Wayne Johnson, Diretor Executivo da University Relations Worldwide, da HP, em palestra no IASEE

2003, em são José dos Campos, março de 2003; citando uma definição corrente nos EU. P. David, Inside the knowledge factory, Survey Universities, The Economist, 08/10/1997, w.economist.com/editorial/freeforall/current/uni1.html. A análise do caso norte-americano é profunda, em especial do problema gerado pela corrida da classe média à universidade e da conseqüente explosão de custos. O interessante é que P. David não percebe que o sistema francês busca a diversidade, acreditando que os diplomas “de estado” franceses possuam uma definição única, comum a todas as escolas de engenharia – o contrário do que vimos acima – mas este erro é comum, devido às idiossincrasias presentes no discurso oficial gaulês. Standards and routes to registration (SARTOR), 3nd edition; London, UK: Engineering Council; w.engc.org.uk. Ver comentários em M. Dodridge, Convergence on engineering higher education – Bologna and beyond, Proceedings of the Ibero-American Summit on Enginnering Education; São José dos Campos, SP: UNIVAP, 2003; e Lange, op. cit., p. 103.

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação

¾ incorporated engineer (IEng), um engenheiro com formação de 3 anos orientada para a indústria, sem embasamento científico ("mathematical modelling – understanding of theory and IT" 32); ¾ chartered engineer (CEng), um engenheiro com formação de 4 anos e boa base científica ("application of appropriate maths, science & IT").

Mais especificamente, repetimos uma tabela preparada por Dodridge para melhor especificar a diferença entre chartered e incorporated engineers:

Ver a Tabela 6 em Dodridge, op. cit., que explicita a formação dos dois tipos de engenheiros, "different but equaly valuable". Ver o texto B55EngineeringInstitutionsJan00 em w.britishcouncil.org.

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação

Tabela 1 - Engenheiros britânicos. Repete a Tabela 6 de Dodridge, op. cit., traduzida mantendo as idiossincrasias britânicas, incluindo o uso de maiúsculas e de títulos formais.

Dois Tipos de Engenheiro Profissional Diferentes mas com igual valor

Todos os Engenheiros profissionais devem:

• Estar pessoalmente comprometido em agir conforme o código de conduta professional apropriado, reconhecendo obrigações para a sociedade, a profissão e o ambiente. • Comunicar-se eficazmente - por meios orais, escritos e eletrônicos.

• Viver sob Desenvolvimento Profissional Continuado

Chartered Engineer

Conhecimento & compreensão direcionados, mas necessitando apropriado know-how

• Engenharia inovadora de nível máximo - liderança técnica e gerencial

• Modelagem matemática - compreensão da teoria e da tecnologia informática

• Orientação sistêmica (e.g. síntese de opções para projrto e desenvolvimento contínuo)

• Pesquisa pura e aplicada e desenvolvimento

• Projetar para além dos limites da prática atual

• Cultivar perspectivas de médio e de longo termo

• Gerenciamento de equipes e de recursos - perspectiva de promoção para gerência de nível médio/máximo

Incorporated Engineer

Know-how direcionados, mas necessitando apropriados conhecimento & compreensão

• Engenharia aplicada de nívelalto - julgamento independente dentro do campo

• Aplicação de apropriaas matemática, ciência e tecnologia informática

• Implementação detalhada do conhecimento atual (e.g. projeto, marketing, gerência de manutenção)

• Controle de qualidade de produtos e serviços extensivo

• Desenvolvimento de sistemas costeffective e de procedimentos seguros

• Cultivar perspectivas de curto e de médio termo

• Gerenciamento de equipes e de recursos - possível promoção para gerência de nível médio/máximo

Mas atenção à sutileza envolvida nas denominações e títulos britânicos, habitualmente incompreensíveis para quem não é um british citizen! Incorporated engineer e chartered engineer são graus credenciados ( accredited degrees), o primeiro obtido após 3 anos de estudo e o segundo após 4 anos de estudo. Depois desta base espera-se que o profissional adquira ao menos 4 anos de experiência profissional (inicial), para então ser entrevistado e ter seu currículo analisado (Final Test of Competence & Commitment), e então passar ao estágio final de seu "registro" (Registration). De fato, será entrevistado a cada 5 anos, para renovação de seu registro, quando será verificado seu desenvolvimentoprofissional continuado. O "registro", que lhe permite adicionar o título (incorporated ou chartered engineer) a seu cartão de visitas (conforme a tradição britânica), é concedido - atualmente - pelo Engineering Council. No esquema atual, o registro do chartered engineer exige a experiência profissional citada, mais estudos universitários – um PhD é muito bem visto – e projetos & publicações, além da entrevista com a comissão de credenciamento33. Neste caso é automaticamente credenciado como european engineer, uma situação criada

Para os que duvidam do "register" vindo após a "accreditation" do "degree", ver a as figuras de

Dodridge, op. cit., muito didáticas, em especial a figura 4: "formation of an engineer in the UK", onde a estrutura aqui apresentada é exposta com mais clareza que nos textos legais cheios de subentendidos.

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação pela Federation Européenne d'Associations Nationales d'Ingénieurs (FEANI), associação fundada em 1951 e bem conceituada no ambiente europeu. Esta última situação mostra que a formação do chartered engineer e a do ingenieur alemão com formação longa apontam na mesma direção, mas esta convergência só fica clara quando ambos chegam ao doutorado.

Dodridge, op. cit., comenta que deveriam ser formados três vezes mais incorporated engineers que chartered engineers, considerando as necessidades industriais. No entanto, as estatísticas britânicas apontam consistentemente o contrário34. Essa tendência contrária ao mercado de trabalho como visto pela academia e pelos órgãos governamentais pode ser explicada pelo prestígio diferente dos papéis sociais associados aos dois tipos de engenheiro, e ao fato de que os que optam pelo caminho que leva ao chartered engineer tem acesso facilitado a um mercado de trabalho estendido e em contínua mutação, assim como o ingénieur francês.

claras na Lituâniadevido a mudanças das condições de trabalho ou no caso de

A consciência deste fenômeno para a situação particular de seu país aparece na resposta madura do representante lituano a uma das questões colocadas pelo SEFI (Société Européenne pour la Formation des Ingénieurs)35: "não é seguro preparar um especialista para um posto de trabalho determinado/muito concreto, porque o mercado de trabalho do país não está estável no momento, e as prioridades para o desenvolvimento industrial não são demissão, os graduados devem ser muito flexíveis para adaptar-se a suas novas condições." E assim condena a formação especializada curta, pondo-se a favor de uma formação longa e mais generalista, voltada para o mercado de trabalho estendido, como a do chartered engineer ou a do ingénieur.

Os papéis sociais no mundo anglo-saxão dependem não apenas dos tipos de engenheiros formados, mas também do prestígio das escolas. As universidades de pesquisa (nos EU) e Cambridge e Oxford (no RU) formam os diretores e os dirigentes nacionais, além dos pesquisadores de alto nível. Na outra ponta temos escolas dedicadas a formar engenheiros de chão de fábrica, orientados a postos de trabalho específicos.

parece ser mais compensador do ponto de vista financeiro

Na cultura norte-americana a educação superior é vista como privilégio e como investimento pessoal (e não como um direito), donde o aluno discute antes de tudo a sua relação custo/benefício. O que explica a dificuldade atual em obter alunos norte-americanos nos doutorados em engenharia. O diploma de advogado

Já no Reino Unido, a educação essencialmente pública e uma tradição dando maior visibilidade social à formação mais acadêmica (e cientificamente profunda) leva à preferência pelo caminho que leva ao chartered engineer – além da possibilidade de acesso ao mercado de trabalho estendido – o que é mais importante no Reino Unido ou na Lituânia (por exemplo) que nos EU, considerando ser tanto maior o risco de desemprego quanto menor é o mercado de trabalho.

O caso brasileiro

Na América Latina, os papéis do engenheiro resumiam-se, na sua maioria e há até 30 anos, ao de gerente de compras de equipamentos ou de execução de projetos adquiridos no exterior36. Como o autor ouviu de um antigo professor do IME e da PUC-Rio, os engenheiros brasileiros:

40% a mais de Chartered Engineers em 1987 e 30% a mais em 2000. Resposta do representante lituano à décima pergunta em The impact of the Bologna Declaration on engineering education in Europe – the result of a survey (as of November 18, 2002), SEFI, in w.ntb.ch/SEFI. Ver Edmundo C. Coelho, As Profissões Imperiais: Medicina, Engenharia e Advocacia no Rio de Janeiro, 1822-1930, Rio de Janeiro, RJ: Editora Record, 1999. Nesta obra é relatada - partir de extensa pesquisa documental - em profundidade a realidade tecnológica e empresarial do país neste período, mostrando onde podiam se inserir os engenheiros,como se formavam e como atuavam.

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação

• ou controlavam obras civis (o projeto, se mais complexo, vinha do exterior37), • ou gerenciavam máquinas e operários - o chamado "engenheiro ferroviário" (com projetos e manuais vindos do exterior), • ou controlavam estoques e operações simples,

(Parte 5 de 11)

Comentários