Livro - a forma do engenheiro inovador

Livro - a forma do engenheiro inovador

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Os papéis sociais atribuídos aos engenheiros não se confundem com suas funções técnicas, estando mais próximos das imagens geradas pelo sistema de educação encarregado de sua formação. Discutiremos estes papéis enquanto apresentamos um resumo dos perfis de formação de engenheiros propostos ou aplicados em alguns dos principais países (do ponto de vista tecnológico) e no Brasil. As fontes de informação serão citadas em notas ao pé da página, reduzindo a descrição histórica ao mínimo.

monetaristas sobre os últimos governantes, confirma esta opinião. Os administradores nem sempre possuem formação para compreender o processo produtivo como um todo. Esta limita-se ao lado contábil e financeiro ou ao problema do gerenciamento de recursos humanos, que reaparecerá mais adiante como essencial para a atuação dos engenheiros com perfil gerencial. Falando genericamente e olhando os conteúdos e perfis de formação habituais das diferentes profissões, podemos dizer que é mais fácil complementar a formação de um engenheiro no que toca questões financeiras ou administrativas, que complementar a formação de economistas e administradores de forma a que eles compreendam o processo produtivo – e este é o sentido último deste parágrafo. Que aparece bem definida nos textos da NSF e do REENGE. Ver MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA – MCT e Ministério da Educação e do Desporto – MEC, PRODENGE - Programa de Desenvolvimento da Engenharia, Documento Básico, 1995, Rio de Janeiro; Wladimir P. Longo, Ciência e Tecnologia: evolução, inter-relação e perspectivas, Anais do IX Enc. Nacional de Eng. de Produção, RS, Brasil, 1989; H. Etzkowitz e M. Gulbrandsen, Public entrepreneur: the trajetory of United States science, technology and industrial policy, Science and Public Policy, vol. 26, number 1, London, England, 1999, p. 53-62; M. George, S. Bragg, A. Santos, D. Denton, P. Gerber, M. Lindquist, J. Rosser, D. Sanchez, C. Meyers, Shaping the Future, Washington D.C., USA: National Science Foundation, 1996, http://www.nsf.org

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação

O modelo francês

As escolas de engenharia surgiram na França no século XVIII com a função de formar corpos técnicos para o estado, dentro da hierarquia já existente na burocracia de estado. Primeiro "engenheiros militares", para ocupar funções técnicas nas forças armadas. Depois "engenheiros civis", encarregados de pontes, estradas, construções e máquinas para os diferentes ministérios "civis". Os dois grupos eram destinados a ascender rapidamente a cargos de gerência, tanto pela qualificação e pela lógica própria às hierarquias burocráticas, quanto por sua extração social17 e pela extrema seletividade própria a escolas com número reduzido de vagas – e emprego garantido ao final.

Estes engenheiros, no início, eram "engenheiros politécnicos", generalistas sem grande base científica, dominando o conjunto de técnicas da época (ainda em pequeno número e desvinculadas do conhecimento científico da época – ver a Encyclopédie de Diderot e d'Alembert), embora a escola escolhida imprimisse uma certa especialização (École de Ponts et Chaussées, École de Mines, etc.).

Depois da Revolução Francesa, sob a influência de Napoleão e de Gaspar

Monge, a formação ganhou bases científicas, iniciando-se o sistema 2+3: depois da obtenção de uma boa menção no Baccalauréat (exame de final de curso secundário), e de dois anos de estudo nas Classes Préparatoires (essencialmente matemática, física, química, filosofia e formação cultural, hoje acrescidas de informática e "princípios" de engenharia), realiza-se o exame de entrada em uma das Écoles de Génie (raríssimos candidatos obtém sucesso na primeira tentativa), ao que se seguem 3 anos de estudo, com formação generalista, completada com alguma especialização no terceiro ano e diversos estágios em empresas (como atividade curricular e controlados pelas escolas). Podemos chamar este perfil de formação de "engenheiro generalista de base científica"18. À medida que o parque industrial francês se desenvolveu, os formandos destas escolas passaram (e ainda o fazem) a ocupar diretamente cargos de direção ou de projeto em empresas privadas ou estatais, o que induziu os cursos a desenvolver a visão gerencial como uma de suas características determinantes – o engenheiro da Grande École, com sua linguagem "ministerial", é um personagem recorrente na literatura e no cinema francês.

Na metade do século X só havia onze escolas de engenharia na França (as

Grandes Écoles), titulando ingénieurs em número limitado, o que garantia enorme seletividade19. Nos dois últimos decênios do século foram muitas Écoles de Génie20, variando seus perfis de formação em torno do descrito acima, eventualmente mais especializados ou mais técnicos. A seletividade e o prestígio são sempre menores que os das escolas mais antigas.

Porém a quantidade de ingénieurs formados sempre foi e tem sido insuficiente para preencher os cargos técnicos no parque industrial francês, principalmente nas funções mais ligadas à operação fabril21. Aqui aparece a face

O que permanece até hoje, ver Pierre Bordieu, A economia das trocas simbólicas, São Paulo, SP:

Editora Perspectiva, 2001. Ver Edmundo C. Coelho, As Profissões Imperiais; Rio de Janeiro, RJ: Editora Record, 1999, p. 196, que chega a falar de uma "rasa preocupação com problemas práticos ou imediatos" dos egressos da École Polytechniqye de Paris, calçado em literatura da área de sociologia e história: E. Kranakis, Social determinants of engineering practice: a comparative view of France and America in the ninenteenth century, Social Studies in Science, vol. 19, 1989, p. 5-70; Terry Chin, Des Corps de l'État aux secteur industriel: génèse de la profession d'ingénieur, 1750-1920, Revue Française de Sociologie, XIX, janeiro-março de 1978, p. 39-71; G. Ahlstrom, Higher technical education and the engineering profession in France and Germany during the 19th century, Economy and History, vol. XXI, 2, p. 51-

8, 1978. Bordieu, op. cit. 227 escolas em 2005, ministrando um total de 728 habilitações (incluindo novas habilitações, como “engenheiro biotecnológico”), tendo sido graduados 30.0 engenheiros em 2004, além de 65 instituições técnicas ou voltadas para a educação continuada, tendo graduado 1.300 engenheiros em

2004. Ver C. Lange, Etre Ingenieur Aujourd'hui, Paris: Editions du Rocher, 1993, p. 1-113.

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação escondida do sistema francês: há mais de oito outras maneiras de chegar à função de engenheiro sem passar por uma École de Génie, nem todas concedendo um diploma de ingénieur reconhecido pela Comission des Titres d’Ingénieur francesa22. Para ilustrar estas possibilidades será descrita a formação mais técnica: depois do Baccalauréat, o aluno cursa dois anos em uma escola técnica de nível superior (Institut Universitaire Technologique - I.U.T.), obtendo um Diplôme Universitaire Technologique (DUT) e, depois de três anos de experiência na indústria, pode realizar mais dois anos de estudos universitários complementares (em meio tempo, enquanto trabalha), obtendo assim o diploma de engenheiro. Este perfil de formação pode ser denominado o de um "engenheiro tecnicista de formação longa". Cabe dizer que esta formação tem um caráter essencialmente especializado, e atende essencialmente às funções de engenheiro de obra ou de chão-de-fábrica23.

Os dois caminhos aqui apresentados para a formação de engenheiros na

França (École dIngénieurs e I.U.T.) são os mais formalizados. O custo por aluno (para o estado, que o financia integralmente) é muito alto, especialmente no primeiro caso. Quase todos os outros caminhos passam pelas Facultés de Philosophie, Sciences et Lettres, originalmente destinadas a formar professores e "homens de cultura", e correspondem a um investimento muito menor por parte do estado - o custo por aluno nas "Fac" é muito menor que nos institutos e escolas especializados. Desta forma, apesar de uma contínua reclamação sobre o "baixo" nível das "Fac", e sem assumí-lo explicitamente, o governo francês equaciona o problema de financiamento do ensino superior, e promove uma forte seleção para o acesso às principais escolas de formação de engenheiros.

Os papéis sociais (representados inclusive na literatura e no cinema) foram apresentados: o "engenheiro gerencial" das Grandes Écoles, dominando um discurso e uma forma de apresentação "ministerial", destinado aos grandes jogos de poder (e extraído de uma reduzida camada social); o "engenheiro de projeto" ou "assessor técnico", detentor de um discurso técnico-científico e cada vez mais orientado para desenvolver sua própria empresa, formado pelas demais Écoles de Génie; e o "engenheiro operacional", que não porta o título de ingénieur, oriundo de outro extrato social e destinado a trabalhar no chão de fábrica ou na área de vendas. Não há, na França, leis limitando o exercício da função “engenheiro” aos portadores de diplomas específicos, ou Ordens ou Conselhos com poder de certificação oficial.

O modelo alemão

No final do século XIX, contrapondo-se ao sistema francês, a Alemanha organizou um sistema de formação de engenheiros integrado com a indústria, de enorme sucesso. O sistema encontra-se repetido na Suíça, no Japão, na Rússia, na Itália, e em muitos outros países desenvolvidos. Prevê duas formações radicalmente diferentes. Em ambas, o grande orgulho alemão – destacado por todos os informantes com quem o autor conversou e confirmado pelos alunos que lá se doutoraram – é o sistema de estágios e a participação das indústrias junto às escolas e aos cursos.

Nas Fachhochschüles o engenheiro recebe uma formação essencialmente técnica, entremeada de estágios na indústria, ao longo de três anos, sem maiores preocupações com embasamento científico. Podemos denominar este perfil de formação de "engenheiro tecnicista de formação curta", naturalmente muito especializado. A sociedade alemã vê este caminho como o mais curto acesso a

Ibd., p. 115-116, onde aparece um diagrama explicando os nove caminhos de formação. Dois dos caminhos passam por um doutorado, sem acesso direto ao diploma d’ingénieur. Hoje em dia deve ser adicionado o caminho que termina por um Master francês, formalmente equivalente ao diploma de

Ingénieur. Para uma visão histórica da criação destes caminhos, ver C. R. Day, The making of mechanical engineers in France: the Écoles d'Arts et Métiers, 1803-1914, French Historical Studies, v. 10, p. 4389-460, 1978.

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação um emprego industrial, sem despender esforços excessivos na obtenção de uma cultura que não vê diretamente relacionada a seus objetivos. Embora na Alemanha não pareça existir alguma restrição a que estes engenheiros ocupem cargos de direção nas empresas, a expectativa social não dirige este técnico à pós-graduação (o que era uma impossibilidade até há pouco tempo) ou a cargos de gerência.

O outro diploma é obtido em uma Technische Universität (anteriormente

Hochschulen), ao longo de cinco anos, seguindo até 2004 o esquema 2+3: dois anos de estudos científicos básicos e três anos em estudos muito especializados, culminando com o projeto de fim de curso e a tese de diploma24. Não há formação gerencial ou humanística. O autor foi informado que é comum o aluno dispender seis anos para obter o grau de ingenieur, por atrasos na entrega da tese de diploma, conseqüência dos estágios na indústria. Podemos denominar este perfil de formação de "engenheiro especializado de base científica". A nova disposição 3+2 será comentada adiante.

O diploma das Fachochschüles, até 2002, não dava acesso legal a uma complementação acadêmica, a formação associada sendo vista como terminal. O diploma das Universität confere maior prestígio social e permite à passagem ao Doktorat – por este caminho se formam os grandes especialistas, pesquisadores, projetistas, consultores e professores alemães. O diploma de Universität exige grande investimento intelectual e financeiro por parte dos alunos sem um retorno suficientemente garantido (para o gosto alemão).

Os papéis sociais relacionados aos dois diplomas são diferentes, porém a sociedade alemã não parece discriminar socialmente o engenheiro de formação curta. Respeita o grande especialista, com formação na Universität – e parece esperar que seu número seja menor que o dos formados nas Fahohschüles. Diplomas e papéis sociais pareciam se integrar perfeitamente às funções do mercado de trabalho até há pouco tempo, e assim ainda aparecem no discurso oficial. As críticas atuais revelam um descompasso cada vez maior entre a formação oferecida (de altíssimo nível em relação a seus objetivos) e as necessidades da sociedade atual – por excesso de especialização e a falta de formação gerencial e sistêmica.

Devemos observar que o engenheiro das Universität é voltado para a inovação tecnológica, mas restrito à sua extrema especialização e à visão técnica. Problema assinalado ao autor pelas autoridades da T. U. Braunschweig como de difícil resolução: como mudar a estrutura formal da escola e de seus cursos (baseada em hierarquias funcionais culturalmente ancoradas) para formar este engenheiro que eles sentem como um "híbrido"?

O modelo anglo-saxão

A formação de engenheiros nos países anglo-saxônicos é aparentemente mais simples, mas esconde sua realidade por trás da liberdade curricular das diferentes escolas e universidades. Historicamente, como observa Alastair Paterson25: "Os engenheiros franceses saíram de uma certa aristocracia, as grandes escolas. São gentlemen. Na Inglaterra, os engenheiros vêm de uma tradição manual e de manutenção de máquinas. No meio do século XIX eles evoluíram para estudos universitários. Isto deixa traços vivos, que diferenciam os engenheiros dos médicos e dos juristas". Apesar deste comentário expressando uma visão social comum aos países anglo-saxônicos, sempre houve uma sutil separação em dois perfis diferentes, só recentemente formalizada ou estendida em quadros nacionais cheios de nuances.

Studien Arbeit e Diplom Arbeit, respectivamente. C. Lange, op. cit., p. 155. Ver também R. A. Buchanan, The rise of scientific engineering in Britain,

British Journal for the History of Science, v. 18, 1985, p. 218-233, comentado em E. C. Campos, op. cit.

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação

Olhando o currículo das escolas classificadas como "universidades de pesquisa" pela Carnegie Mellon Foundation26, EU (escolas organizadas segundo o conceito Humboldtiano de universidade de pesquisa), encontramos a exigência de uma boa formação científica, de uma razoável formação humanística, de alguma formação técnica especializada (organizada em dois temas, o major e o minor), e uma grande liberdade de escolha de disciplinas eletivas. O MIT (Massachussets Institute of Technology) diz em seu informe geral que seu compromisso é prover os estudantes com uma formação fortemente científica, técnica e humanística, e encorajá-los a desenvolver sua criatividade para definir problemas e buscar soluções. Para o "bachelor of science degree", os estudantes devem completar um núcleo de exigências igualmente divididas entre ciências e matemática e humanidades, artes e ciências sociais (sic.). As exigências em ciências/matemáticas incluem química, biologia, física, e cálculo, assim como laboratórios e eletivas científicas. As exigências em humanidades, artes, e ciências sociais devem ser preenchidas com três entre cinco categorias: estudos literários; linguagem, pensamento e valores; artes; culturas e sociedades; e estudos históricos. Os estudantes também devem completar uma exigência escrita multidisciplinar. O espírito da formação aparece no texto de apresentação do MIT e está representado em seu brasão, ladeado por um técnico (um homem portando um martelo) e um professor (de beca, simbolizando o compromisso com as humanidades, termo muito bem definido na cultura anglo-saxônica)27. A notar que o curso dura 4 anos e não pressupõe 2 anos de estudos prévios da base científica, o que o torna muito diferente dos cursos franceses.

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