Livro - a forma do engenheiro inovador

Livro - a forma do engenheiro inovador

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Outras características tem sido assinaladas pelas gerências de recursos humanos das empresas do setor elétrico7, mesmo antes dos recentes escândalos no mercado energético norte-americano: comportamento ético, capacidade de trabalhar em equipe e experiência internacional, por exemplo.

Já neste exemplo, explorado rapidamente, podemos ver um conjunto de mudanças tecnológicas, organizacionais, econômicas e culturais alterando o campo de atuação do engenheiro. Uma rápida pesquisa na literatura permite

Que são condições necessárias mas não suficientementes para o aumento da produtividade. Sinval Z. Gama, O perfil de formação do engenheiro elétrico para o século XXI, Tese de Doutorado,

Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica, PUC-Rio, 2002. Ver as especificações para candidatos a empregos na Light S. A. e na Iberdrola do Brasil, por exemplo, ou os resultados da pesquisa realizada para a USP e a FIESP, em 1998, comentados em Maria C. Moraes, O perfil do engenheiro dos novos tempos e as novas pautas educacionais, in Irlan von Lisingen, Luiz T. do V. Pereira, Carla G. Cabral e Walter A. Bazzo (organizadores), Formação do Engenheiro, Florianópolis, SC: Editora da UFSC, 1999, p. 53 – 6. Ou, internacionalmente, a palestra de Luane Morell na Industry Round Table (Relatóprio da Força Tarefa D), apresentando os requisitos de algumas das principais indústrias norte-americanas, em http://www.univap.br/iasee2003

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação organizar uma lista de mudanças um pouco mais abrangente, prenhe de contradições e conflitos. 1. O fim da "guerra fria", com a queda do muro de Berlin, diminuindo o incentivo à invenção científica geradora de prestígio ou associada ao poderio militar (donde à ciência básica, à física nuclear e aos programas espaciais), privilegiando a busca de inovações e de novos produtos comercializáveis, e alterando a distribuição de poder – o que levou à tentativa de impor a hegemonia da "lógica de mercado", apresentada como pensamento único (o modelo neo-liberal), de forma a ampliar e fixar o poder econômico das potências dominantes. ¾ Conseqüências: desregulamentação, onda de privatizações, abertura de mercados segundo a lógica da OMC, crescente importância do mercado financeiro, maior competição nacional e internacional, maior insegurança (própria à alta volatilidade dos mercados financeiros) – donde maior necessidade de considerar o risco e de trabalhar com e sob suas conseqüências, etc. 2. Nova divisão internacional do trabalho com empresas multi-nacionais passando a supra-nacionais e mudando de lugar seus centros de produção de acordo com as vicissitudes políticas. 3. Novas tecnologias: aumento da rapidez das telecomunicações e da capacidade de transmitir massas de dados em pouco tempo, informática, redes de comunicações (inclusive a Internet), nanotecnologias (com a conseqüente miniaturização e barateamento de equipamentos), biotecnologias (cujo impacto só começa a se fazer sentir), bio-nanotecnologias, etc. ¾ Conseqüências: alteração dos processos de trabalho – entra aí toda a “engenharia de sistemas”, centro das atividades do engenheiro moderno - e das pautas comerciais, alteração das técnicas mais viáveis, novos produtos baseados em inovações, compressão dos preços das matérias primas e dos insumos industrializados básicos contra maior valor adicionado associado às novas tecnologias, etc. 4. Exacerbação da busca do aumento de produtividade – uma das preocupações tradicionais dos engenheiros. ¾ Conseqüências: aumento da padronização e modularização dos produtos e dos processos de trabalho, levando à terceirização e à alteração da organização industrial, concomitantes com maiores esforços na compactação dos processos de trabalho8; automação de processos de fabricação e projeto, diminuição da necessidade de engenheiros (e operários) operando junto às máquinas e ao "chão de fábrica". Necessidade de uma maior quantidade de cabeças trabalhando em torno da integração das operações e dos sistemas que as controlam e regulam. Divisão dos trabalhadores entre os empregados permanentes e os temporários ou "terceirizados" em função das novas atividades exigindo alta formação, mas secundárias em relação aos objetivos da empresa. 5. Surgimento da "sociedade de serviços" ou "sociedade pós-industrial", onde a maior parte das atividades e dos postos de trabalho encontra-se junto ao cliente e voltada para satisfazer seus interesses9.

Heitor M. Caulliraux, Estratégias de produção e automação: Formulação e análise, Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em de Engenharia Elétrica, PUC-Rio, 1990; e Luiz A. Meirelles, Miniaturização e Redução da Necessidade de Trabalho, Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em de Engenharia Elétrica, PUC-Rio, 1991. Marcos A. da Silveira, Luiz A. Meirelles e Maria I. Paes e Silva, Notas sobre o curso de engenharia, in Nova Visão dos Cursos de Engenharia e suas Implicações na Universidade Moderna: uma Proposta da PUC-Rio, Relatório Interno do Decanato do CTC, PUC-Rio, 1995; e Luiz C. Scavarda do Carmo, J. A. Pimenta-Bueno, J. A. Aranha, Therezinha S. Costa, José A. dos R. Parise, Maria A. M. Davidovich, Marcos

A. da Silveira, The Entrepreneurial Engineer - A New Paradigm for the Reform of Engineering Education,

Proceedings of the ICEE97, vol. I, 398-408, Southern Illinois Un. at Carbondale, USA, 1997, e suas listas de referências.

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação

6. Consciência pública das limitações energéticas e dos problemas ecológicos, que pode ser datada da crise do petróleo, em 1973, e das primeiras catástrofes ecológicas com grandes navios petroleiros (Exxon-Valdez e Amoco-Cadiz), dos acidentes de Chernobil e de Three Mile Islands, e das questões ligadas à destruição da camada de ozônio e ao efeito estufa. ¾ Conseqüências: busca de novas formas de energia, aparecimento da questão da reciclagem de materiais, regulamentações ecológicas, exigência de estudos de impacto ambiental, movimentos ecológicos nãogovernamentais ativos e influentes, nascimento da indústria de remediação ambiental, etc. 7. Maior exigência quanto aos direitos do consumidor.

¾ Conseqüências: princípios de qualidade total, maior controle por parte de órgãos e agências reguladoras, popularidade dos sistemas de certificação, códigos de defesa do consumidor gerando grande movimentação jurídica, novas exigências em torno da "political correcteness". Esta mudanças, levando à ampliação do escopo da atuação do engenheiro e à alteração da sua forma de atuação, aparecem nas definições utilizadas para "engenharia". Do texto comum em torno de 1970, "profissional competente para projetar, implementar e gerenciar processos de transformação de materiais", o que exclui serviços que não tenham como objeto imediato materiais e máquinas, passou-se pelos conceitos de "problem solver" e de "designer" (de base tecnológica, bem entendido), chegando a um "profissional competente para projetar, implementar e gerenciar intervenções em práticas sociais de base tecnológica, considerando seus impactos ambientais, econômicos e sociais". Esta última definição, mais abrangente e referida à sociedade e à cultura onde o engenheiro está imerso, aparece em um dos textos que serviu de base ao Programa REENGE10. Voltaremos a este assunto mais adiante, depois de revisar funções, perfis de formação e papéis sociais propostos para engenheiros, e observar a multiplicidade de propostas existentes (internacionalmente) para a formação de engenheiros.

I.2. Funções, perfis de formação e papéis do engenheiro

Primeiro, revisaremos rapidamente as funções a serem exercidas por engenheiros dentro da representação tradicional da profissão, organizando a terminologia para a apresentação dos seus perfis de formação e papéis sociais. Fugiremos às nomenclaturas tradicionais (encontrada nas publicações das corporações de engenheiros) para evitar confundir "função", "cargo" e "papel social".

Tradicionalmente, espera-se que o engenheiro recém-formado exerça uma função técnica de execução na empresa sob o controle de um engenheiro experiente, como formação complementar. Tendo sucesso, passa a "chefe de equipe técnica" encarregada de tarefas de produção ou de manutenção, ou a de "gerente de estoque", estas duas funções também citadas como "engenheiro de obra" ou "engenheiro de chão-de-fábrica". Outra possibilidade, mais rara, é passar a "projetista" dentro de uma equipe especializada. Em ambos os casos o engenheiro utiliza a linguagem das plantas, diagramas técnicos, planilhas e tabelas de especificação (de produtos, de processos, de operações)1. Muito poucos ocupam a função de "projetista" em níveis mais altos, até chegar a dirigir equipes ou empresas especialmente dedicadas. A maioria dos engenheiros passa a "gerente técnico", encarregado de comandar as equipes técnicas, traçar as grandes linhas de projetos, tomar decisões sobre compras ou vendas. Nesta da Silveira et al., 1995, op. cit. Em contraste com a linguagem de fórmulas usadas pelos matemáticos, físicos e químicos, ou dos mapas, relatórios e monografias comuns em outras áreas tecnológicas (geologia, psicologia, direito, por exemplo), e mais ainda com os produtos finais de designers e comunicadores sociais.

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação função o engenheiro ainda usa a linguagem das plantas, embora ocupe o seu tempo com estudos, relatórios e contratos. Finalmente, o engenheiro, tendo sucesso, passa à função de "administrador técnico" (e, depois, à de "administrador", simplesmente), tendo que tomar decisões políticas técnicas e financeiras, administrar recursos humanos e relacionar-se com o público. A atividade, neste caso, passa pela direção de reuniões de técnicos e assessores, pela preparação de memorandos e contratos e pelas negociações empresariais (dentro da empresa ou com seus clientes).

No entanto, sob o denominação de “função técnica” aparecem ocupações não contempladas nas escolas de engenharia. Depois de um período circulando pela empresa (trainees) ou participando de cursos internos de formação12, grande parte dos engenheiros passam a trabalhar em vendas, atendimento aos clientes ou a analisar, desenvolver e integrar sistemas. Nestas atividades utilizam seriamente o conhecimento técnico próprio à profissão, e também toda uma gama de conhecimentos e capacidades associados atualmente à função “engenheiro”, porém desconsiderados pelas escolas.

Dodridge13, por exemplo, afirma que 70% dos engenheiros britânicos trabalham fora de sua especialidade técnica, o que explica o "desemprego" dos engenheiros alardeado pelas corporações profissionais. Uma pesquisa do SENAI realizada no Brasil na década de 70 já mostrava um percentual semelhante para os engenheiros trabalhando na rede ferroviária: 67% não ocupavam as funções técnicas associadas ao papel social esperado na sociedade brasileira na época, necessitando de uma formação diferente daquela ministrada então nas escolas de engenharia, embora ainda vinculada à engenharia.

Completando este quadro, cabe citar a minoria dos profissionais que são contratados como "pesquisadores" em centros de pesquisa, empresas de consultoria, escolas de engenharia e universidades, dedicados ao desenvolvimento de estudos e produtos ou à ciência da engenharia. Mas não esquecer que engenheiros exercem a função de "professor" ou de “treinador” também nas empresas – são responsáveis pelos cursos internos e pelo treinamento de suas equipes.

Novas funções apareceram como conseqüência das mudanças apontadas acima. Elas giram em torno da capacidade que tem o engenheiro bem formado de enfrentar problemas pensando com clareza e considerando as possibilidades e os limites técnicos. Uma ilustração interessante e mordaz é o personagem Dilbert, da história em quadrinhos de mesmo nome que é publicada nos jornais14. Ali, o engenheiro é o único personagem cuja inteligência está voltada ao sucesso da operação da empresa, e que consegue fazer análises fundamentadas de possibilidades - ou impossibilidades, situação preferida pelo autor da tira. É como se, ao perguntarmos onde está a inteligência de um processo produtivo, fossemos sempre encontrá-la em uma função exercida por um engenheiro (quando são necessários formalização ou modelagem matemática e conhecimentos tecnológicos, articulados de forma inteligente) ou por um advogado (no caso de atuação jurídica ou política, atividades voltadas à representação de interesses e às escolhas estratégicas)15.

Na EMBRAER este período inicial é de dois anos, onde os “trainees” realizam projetos em equipe, considerando custos, interesses dos clientes, problemas de especificação e de integração dos diferentes sistemas que formam um avião e recolhem/agregam as informações para que o piloto, a equipe técnica e a administração da empresa de aviação tomem suas decisões – assuntos sequer mencionados nos curso de engenharia. M. Dodridge, Convergence on engineering higher education – Bologna and beyond, Proceedings of the Ibero-American Summit on Enginnering Education; São José dos Campos, SP: UNIVAP, 2003. De autoria de Scott Adams, United Featured Syndicate, Inc. Notar que o personagem do engenheiro é incompetente para fazer política dentro da empresa, por formação e por escolha ética

(seu compromisso é com a qualidade dos produtos). Talvez devêssemos considerar outras categorias, como economistas ou administradores de empresa. Os primeiros possuem formação científica, fazem análises inteligentes, mas não são voltados para resolver problemas relativos ao processo produtivo. A atual prevalência das finanças sobre a capacidade de produção do país, resultado do domínio ideológico dos economistas

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação

Além daquilo que é chamado de “sistemas” e “logística”, aparecem atividades como a direção de micro-empresas, consultoria técnica, análise, projeto ou gerenciamento de processos informáticos, financeiros ou técnicogerenciais - as novas técnicas gerenciais ou financeiras exigem modelagem matemática bem acima do acessível a contadores ou formados apenas em administração.

Uma grande empresa, como FURNAS ou PETROBRÁS, está repleta de engenheiros exercendo funções deslocadas do quadro técnico habitual e não correspondendo à carreira tradicional exposta no início desta sub-seção. O chão de fábrica desapareceu do caminho da maior parte dos profissionais de engenharia. De forma mais radical, podemos dizer que as lanchonetes MacDonald's são belos exemplos de um processo construído por engenheiros, mas que não corresponde a um de seus empregos industriais tradicionais.

Esta função de guardião da inteligência do processo e encarregado das decisões informadas reaparece na figura mítica do problem solver, presente em inúmeros textos do final do século XX16. Sua competência lhe habilitaria a formalizar, modelar, resolver, projetar, negociar, implementar, gerenciar e explicar (ao público interno ou ao externo) os problemas de base tecnológica. O sonho deste super-profissional multi-habilitado exprime um desejo nascido da percepção de problemas gerados na interface social de inovações tecnológicas cuja resolução depende de capacitações não encontradas nos profissionais existentes. Estes problemas são sentidos de forma tanto mais aguda quanto mais se sentem desamparados o público, os decisores e os formadores de opinião – diante da quantidade atual de informações técnicas e do uso generalizado de conceitos técnico-matemáticos que transcendem sua própria formação (falha do ensino secundário?). O fenômeno pode ser percebido na reiterada citação a cientistas nos meios de comunicação, mesmo fora de seu contexto de competência, buscando uma apropriação indébita do prestígio técnico-científico, ou, negativamente, na desconfiança em relação à ciência em geral (ver a proliferação atual de terapias "suaves" ou "alternativas" e a presença sistemática do "cientista do mal" nas histórias em quadrinhos e nos filmes de aventura – exceto o japoneses).

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