Livro - a forma do engenheiro inovador

Livro - a forma do engenheiro inovador

(Parte 2 de 11)

UMIST - University of Manchester (RU)

UNICAMP - Universidade Estadual de

Campinas

UNIFEI Universidade Federal de

Itajubá (antiga EFEI)

UNIMEP - Universidade Metodista de

Piracicaba

UNIP - Universidade Paulista UNISINOS - Universidade do Vale dos Sinos

UNIVAP - Universidade do Vale do

Paraíba

USP - Universidade de São Paulo VBA - Verbund behinderter

ArbeitgeberInnen (Associação Alemã de Trabalhadores).

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação

Capítulo I

O contexto social e econômico onde os engenheiros atuam mudou radicalmente desde a criação dos cursos destinados à sua formação, no final do século XVIII, mudança que se acelerou nos últimos decênios do século X. Novas tecnologias, como a pesquisa operacional, a informática, as telecomunicações e as biotecnologias, não só deram origem a novas ferramentas, exigindo uma formação complementar, mas alteraram profundamente os processos de trabalho e suas representações. Novas questões passaram a afetar esta atuação, como as relacionadas aos impactos ambientais e sociais das atividades produtivas, criando novos problemas e novas áreas de trabalho – e novas regulamentações a serem consideradas (ou construídas). O mercado de trabalho estendeu-se para o setor de serviços – seja porque este foi trazido para dentro do planejamento da produção pela busca da "qualidade total", pelo uso intensivo das redes de telecomunicação e da informática e pela modularização e terceirização de parte dos sistemas de gerenciamento e produção, seja porque os serviços em geral estão cada vez mais dependentes da capacidade de formalização e organização próprias à engenharia.

Estas mudanças tem levado ao aparecimento de novos cursos, habilitações, modalidades e especializações, além da necessidade de contínua adaptação dos cursos já existentes – e que não pode ser atendida apenas pela criação de cursos de pós-graduação. As questões que devem ser colocadas – e respondidas - diante da criação ou mudança de cursos de engenharia, passaram a ser repetidas ou recolocadas com enorme freqüência, exigindo o desenvolvimento de uma metodologia mais sistemática para sua abordagem.

Quais os perfis de formação melhor indicados para a situação atual? Como escolhê-los, diante das diferentes visões de futuro encontradas na academia e na sociedade, representando os mais diversos interesses? Como considerar a situação local de cada escola e as mutações do mercado de trabalho? Como desenvolver currículos e estratégias didáticas frente às novas necessidades e aos novos e variados perfis de formação? Dado que a capacidade de produzir inovações tecnológicas e transformá-las em produtos tornou-se um dos principais ativos econômicos, como preparar os engenheiros para esta nova missão, levando em consideração – inclusive – o projeto de país e a situação nacional? Como avaliar os resultados obtidos e informar à sociedade o que está, de fato, lhe sendo oferecido?

A relevância atual destas questões gerou o aumento de sua discussão nacional e internacional. Várias sociedades e organizações foram criadas em torno destes temas (ABENGE, ASIBEI, SEFI, ASEE, INEER, ABET, etc.), promovendo um grande número de conferências (Congressos Brasileiros de Ensino de Engenharia – COBENGE, os enormes congressos da ASEE, e as International Conferences on Engineering Education - ICEE, e.g.), além de programas governamentais especialmente dedicados (Engineering Education Coalizations/ NSF/EU e PRODENGE/REENGE, e.g.). Diversos acordos internacionais têm sido firmados buscando a criação de áreas comuns de formação (mobilidade de estudantes), ou visando o reconhecimento ou credenciamento de títulos, como as Declarações do Rio de Janeiro (1999) e de Paris (2000) criando a UEALC (espaço comum de ensino superior para a União Européia, América Latina e Caribe), a Declaração de Bologna (1999) criando o espaço comum europeu para a educação em engenharia, e os Acordos de Washington (1989) e de Sidney (2001) criando o espaço comum em educação em engenharia para os países de língua inglesa.

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação

Estas questões tornam-se especialmente incômodas quando percebemos a distância entre os diferentes perfis de formação propostos pela academia, pelos organismos encarregados do registro de profissionais, e pelos órgãos que credenciam e avaliam as escolas de engenharia, sem deixar de mencionar as expectativas no mercado de trabalho1. Pensamos tanto nos perfis explicitamente propostos como nos definidos implicitamente a partir das sistemáticas de avaliação, como ocorreu com o Exame Nacional de Cursos brasileiro, vulgo "Provão"2.

Estas questões são essenciais para nosso país devido à sua dependência tecnológica, em uma sociedade internacional onde a inovação tecnológica é um dos principais trunfos econômicos e políticos – questão ainda pouco considerada na formação dos engenheiros brasileiros e em discussão ainda inconclusa no Congresso Nacional.

Estas questões tornam-se prementes se considerarmos a atual pressão da

Organização Mundial do Comércio (OMC) no sentido de tornar mais flexível a regulamentação de acesso aos mercados nacionais de educação, com propostas explícitas por parte do Banco Mundial, dos EU, da Austrália e do Japão.

Estas questões possuem relevância técnica, como os especialistas na área de educação não cansam de assinalar3, porque entre um perfil de formação desejado (com suas listas de competências), o currículo planejado e o currículo real, há distâncias tanto maiores quanto maior a esperança de que elas ocorram por mudanças espontâneas de atitude das escolas e de seus professores.

Em uma conhecida boutade4, um aluno pergunta a seu professor como pode ser mudado o currículo do curso de engenharia. Este responde que há duas formas, a normal e a milagrosa. O aluno pergunta pela forma normal. O professor lhe responde que é aquela em que um anjo desce ao Conselho Universitário e entrega um currículo novo. Naturalmente espantado, o aluno pergunta qual é, então, a forma milagrosa. Resposta: o Conselho Universitário encomendar pesquisas, discutir com os professores os seus resultados, os objetivos da universidade, os meios e as possibilidades, e então organizar e promulgar o novo currículo.

Adiantando uma das críticas a esta boutade, cabe lembrar que mudanças em currículos não são realizadas de forma completa em um instante determinado. São realizadas ao longo de todo um demorado processo, começando pela escolha de uma visão de futuro, de um perfil de formação, passando pela elaboração, experimentação e avaliação de novos currículos, novas estratégias e novas metodologias, até a implantação incremental (e sempre experimental, isto é, sujeita a revisões) dos novos objetivos e métodos assim delineados.

Neste trabalho pretendemos fornecer subsídios para enfrentar algumas das questões colocadas acima. Começaremos comentando as mudanças sócioeconômicas que afetam atualmente a atividade do engenheiro. Depois investigaremos rapidamente os diferentes perfis de formação e os papéis exercidos ou propostos para engenheiros, em especial no Brasil. O que permitirá criticar as diferentes definições de engenharia encontradas na literatura e os perfis de formação para engenheiros propostos para o início deste século.

Temas desenvolvidos em trabalhos recentes, como Sinval Z. Gama, O perfil de formação do engenheiro elétrico para o século XXI, Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em

Engenharia Elétrica, PUC-Rio, 2002. O perfil exigido pelo "Provão" pode ser descrito como a capacidade de resolver problemas típicos do conteúdo acadêmico de uma determinada habilitação da engenharia em provas escritas de 4 horas, o que limita os problemas a um conjunto básico ou paradigmático, pré-estabelecido, sem que seja possível o exercício da criatividade e das atitudes próprias a um engenheiro. Ver Ph. Perrenoud, La transposition didactique à partir de pratiques: des savoirs aux compétences, in Revue des sciences de l'éducation (Montréal), Vol XXIV, n. 3, 1998, p. 487-514 (acessível no site do autor), ou Ph. Perrenoud, Paquay, Altet e Charlier, Formando professores profissionais. Quais estratégias? Quais competências? Porto Alegre, RS: ARTMED Ed. Citada na Conferência Anual da ASEE de 1993 (1993 ASEE Annual Conference Proceedings).

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação

Ilustrados por estas críticas, poderemos problematizar a questão de onde e como obter informações para desenvolver currículos de engenharia e discutir algumas das dificuldades a serem consideradas, incluindo aí a questão dos valores que presidem a construção de um currículo. O referencial teórico será apresentado no próximo capítulo.

I.1. Mudanças no campo de atuação dos engenheiros

Um exemplo interessante de mudança no campo de atuação é dado pelos engenheiros eletricistas, especialistas em sistemas de potência. No passado recente (há 20 anos) exigia-se que estes engenheiros fossem apenas competentes em projetar e gerenciar sistemas de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica. Outras características, como liderança ou competência administrativa, eram apenas mencionadas como desejáveis, não como determinantes. Temas como previsão da demanda de energia elétrica, projeto de construção de novas usinas ou de novas linhas de transmissão, ou ainda a determinação dos fluxos de potência, eram da alçada puramente técnica destes engenheiros, no máximo dividindo a discussão com engenheiros civis (no caso da construção de barragens, por exemplo) ou economistas (para tratar de financiamentos). A competência e a responsabilidade exigidas eram essencialmente técnicas.

Hoje em dia, a construção de uma barragem pode ser adiada por anos (ou mesmo impedida) por razões ambientais, acionadas pelas muitas ONGs dedicadas ao assunto. Por esta razões, deve ser cotejada com a possibilidade do uso de fontes alternativas de energia. Da equipe de projeto devem fazer parte engenheiros eletricistas, engenheiros civis, advogados, economistas, geólogos, geógrafos e sociólogos, pois a nova usina deve ser projetada a partir de uma clara visão histórico/social, considerando seus impactos ambientais, sociais e políticos, além dos legais e econômicos. Como declarou o Diretor Técnico da ELETRONUCLEAR em alocução recente na PUC-Rio, uma nova usina nuclear deve começar a ser discutida a partir das conveniências econômicas, políticas e ambientais, para só então, e em função delas, passar à discussão técnica. Porém, como separar os diferentes domínios de discussão se as possibilidades técnicas afetam as decisões econômicas, políticas e ambientais, e vice-versa?

O equipamento elétrico atual deve ser substituído (trazendo a qualidade da energia fornecida aos padrões exigidos pelas agências reguladoras) ou mantido (o que implica em políticas pesadas de manutenção e maior risco de multas por parte das mesmas agências)? Se uma nova tecnologia for esperada para os próximos cinco anos, a segunda opção pode ser a melhor: equipamentos elétricos costumam ter vida útil de trinta anos, e, se a nova tecnologia trouxer ganhos compensadores em pouco tempo, vale a pena esperar. A análise de custo/benefício da substituição de equipamentos imbrica fortemente as competências científicas (prever as novas tecnologias), técnicas, econômicas e legais (a regulamentação do setor é extremamente complexa).

Os engenheiros trabalhando com temas técnicos, mas não envolvidos em manutenção ou compra de equipamento, costumam estar às voltas com integração, desenvolvimento ou análise de “sistemas”. A palavra é muito genérica, mas descreve um mundo muito preciso no seio de uma empresa: como as informações sobre a operação (técnica e comercial) são recolhidas, analisadas, trocadas, relatadas, integradas, e postas a serviço da tomada de decisões. Todos trabalham sobre computadores, usando e adaptando programas, mas pensando profundamente sobre as atividades da empresa e de como torná-las mais eficientes, evitando perdas, integrando operações, mudando a logística da operação e da troca de dados e informações.

Neste campo aparecem os maiores ganhos de produtividade no final do século X – constitui o cerne da “sociedade da informação”, freqüentemente

Capítulo I O papel do engenheiro e sua formação confundida com a influência da computação e das telecomunicações5. “Callcenters”, despacho de energia de sistemas interligados, sistemas de comutação e centrais (automatizadas) de controle são exemplos destes “sistemas” interligados no centro das discussões e do trabalho dos engenheiros. Embora as redes de informações (viva a Internet e as telecomunicações rápidas e baratas!) alterem a ordem de grandeza dos ganhos de produtividade, a essência dos processos está em novos modelos organizacionais, novas formas de exposição e apresentação, novos algoritmos de processamento de dados e de cálculo matemático, e uma compreensão mais profunda do fenômeno logístico.

Uma visita a FURNAS, à LIGHT ou ao OMS mostrará rapidamente que os lucros ou perdas estão essencialmente relacionados ao uso de programas tão abstrusos quanto o Wave (aplicação de programação matemática) ou a estratégias racionais e sistemáticas discutidas nas diversas equipes que formam estas empresas – e, em grande parte, desenvolvidas no CEPEL ou nas universidades. Porém as escolas de engenharia não tratam destes assuntos, limitando-se aos fundamentos técnicos de cada especialidade.

Continuando o exemplo, a descoberta de novos "produtos" (tipos de energia e novas formas de distribuição e de tarifação) destinados a ocupar novos nichos de mercado passou a ser muito importante para a saúde financeira das empresas e no interesse do consumidor. No ambiente estatizado da década de 70 a decisão político-econômica era centralizada e monolítica, sendo considerado mais importante garantir a oferta de energia a qualquer custo que diminuir o seu preço para o consumidor final (embora este fosse fortemente subsidiado para a indústria) ou ainda adaptá-la a necessidades particulares. Hoje, novas questões envolvendo a segurança e a qualidade do fornecimento de energia elétrica, o lucro ou o prejuízo das empresas, e o custo e o preço da energia, mobilizam empresas, agências reguladoras, o governo e o público em geral – mesmo que os novos modelos gerenciais do setor ainda não estejam estabelecidos (com a possível exceção da Grã-Bretanha) e que a formação atual dos engenheiros delas encarregados não contemple estes temas.

Decisões econômicas deste tipo exigem a escolha de uma visão de futuro (que não é e não precisa ser uniforme entre empresas e/ou governos), a posse de uma boa visão de mercado, além de uma profunda compreensão das questões técnicas subjacentes. Não são decisões para economistas ou administradores, considerando sua formação habitual. A não ser que tenham tido previamente a necessária formação técnica: a de engenheiro eletricista. Por outro lado, engenheiros eletricistas não costumam possuir a visão de mercado ou a formação administrativa necessária. Este último comentário explica, em parte, a procura de MBAs por parte dos engenheiros do setor elétrico6, como forma de complementar sua formação.

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