A produção monográfica no contexto acadêmico

A produção monográfica no contexto acadêmico

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Resumo O objetivo principal deste estudo é realizar uma reflexão que possa contribuir para a compreensão da monografia, texto de caráter acadêmico–científico, no que diz respeito à estrutura global (macroestrutura), ao layout do texto, à apresentação gráfica, às normas, a partir do que tem sido produzido, na prática, pelos professores e acadêmicos, no Brasil. Busca–se dialogar com os que se interessam por questões relativas ao processo de ensino–aprendizagem desse gênero da esfera acadêmica, especialmente, professores de Língua Portuguesa e outros professores que se vêem envolvidos, de alguma forma, com a produção escrita no ensino superior. Esta investigação propõe, pois, um especial cuidado em relação à caracterização desse gênero, em especial, à compreensão de diferentes dimensões envolvidas em produções monográficas, de bacharéis. O conceito de gênero como categoria do discurso possibilita à Lingüística Aplicada ampliar o horizonte de explicações sobre a linguagem. Via de regra, há uma pretensão, neste estudo, de se apresentar o que alguns cursos de uma Instituição de Ensino Superior têm realizado no campo de produção textual escrita e que possam contribuir para a elaboração final de um trabalho de conclusão de curso, após apresentar abordagens teóricas e preocupações pedagógicas do campo de análise de discurso em contextos acadêmicos.

Palavras-chave: Monografia, Gêneros acadêmicos, Escrita no Ensino Superior..

1 INTRODUÇÃO

O objetivo principal deste artigo é realizar uma reflexão que possa contribuir para a compreensão da monografia – um texto de caráter acadêmicocientífico – no que diz respeito à estrutura global (macroestrutura), ao layout do texto, à apresentação gráfica, às normas da ABNT e às finalidades do ensino superior, relativas á produção do conhecimento. Busca-se dialogar com os que se interessam por questões relativas ao processo de ensino-aprendizagem desse gênero da esfera acadêmica, especialmente, professores de língua portuguesa e outros professores que se vêem envolvidos, de alguma forma, com a produção escrita no ensino superior, como autores e orientadores monografia. Este estudo propõe, pois, um especial cuidado em relação à caracterização desse gênero, em especial, à compreensão de diferentes dimensões envolvidas em produções monográficas como prática da escrita no ensino superior.

Eleger o texto como unidade básica de ensino e aprendizagem é um passo metodológico que se considera correto, mas muitas vezes conduzido equivocadamente. A compreensão da complexidade do próprio texto, em quaisquer de suas formas, é um trabalho em desenvolvimento. E essa compreensão não se

Editora KeimelionRevisores de textos http://www.keimelion.com.br faz sem que os sujeitos incrementem sua própria prática como leitores, como escritores, como interlocutores.

Dados esses aspectos preliminares, refletir sobre a leitura e produção no ensino superior passa pela necessidade de se reafirmar o momento em que um sujeito abandona sua dificuldade para escrever palavras que lhe sejam próprias e se autoriza a iniciar e a sustentar uma produção. No caso da universidade, a excessiva reprodução de palavras gastas, o silêncio no processo de criação textual, nos conduz à seguinte interrogação: Que respostas a universidade de hoje tem apresentado para melhor compreender o processo de escrita no ensino superior? Qual é o real sentido de leitura e produção de texto na escola de nível superior?

As crescentes dificuldades que os alunos dos cursos de graduação e até mesmo de mestrado e de doutorado encontram, quando se defrontam com a necessidade de produzir textos pertencentes a gêneros da esfera tipicamente escolar e/ ou científica, refletem na produção do conhecimento? Este é o caso, por exemplo, da produção de resumos escolares, resenhas críticas, relatórios, projetos de pesquisa, artigos científicos, dentre outros.

As causas dessas dificuldades são inúmeras, mas pretende-se apontar apenas uma delas, que nos parece poder ser enfrentada, que é a falta de ensino sistemático desses gêneros; que sejam orientados, pois, muitas vezes, o aluno é solicitado a produzir algo por conta própria, intuitiva, com muito esforço. Na maioria das vezes, subsiste a crença de que há uma capacidade geral para a escrita, que, se bem desenvolvida, nos permitiria produzir de forma adequada textos de qualquer espécie. Outras vezes, acredita-se que o mero ensino da organização global mais comum do gênero seja suficiente para que o aluno chegue a um bom texto. Via de regra, parece-me necessário que fosse desenvolvida, com os alunos, uma prática pedagógica voltada para a construção de textos acadêmicos endereçados à comunidade discursiva (nesse caso, comunidade acadêmica/científica) e para a inserção dos alunos nessa comunidade.

Entretanto, por outro lado, organizar globalmente um texto, em sua forma canônica, é apenas um dos procedimentos necessários para chegar a uma produção adequada. A complexidade característica dos gêneros exige o desenvolvimento de muitas outras capacidades.

Ainda nessa perspectiva, o processo de orientação de trabalhos de conclusão de curso, nas diversas áreas do conhecimento, em qualquer Instituição

Editora KeimelionRevisores de textos http://www.keimelion.com.br de Ensino Superior, tem sido, efetivamente, objeto de reclamação por parte dos envolvidos, ao perceber que os alunos encontram uma série de dificuldades ao redigir textos acadêmicos e, muitas vezes, apresentadas também por parte do orientador da produção textual.

Para melhor conduzir essas discussões, interessa-nos partir de uma descrição mais acurada de uma forma bastante contemporânea da inibição para escrever que consiste em uma curiosa compulsão para aderir às palavras do outro em detrimento das próprias, como fora mencionado, seja sob a forma de plágio, paráfrase, excesso de citações, ou mesmo, por uma incapacidade de formular outro tipo de questões que não aquelas que visam exclusivamente comprovar o que já está dito em uma dada teoria.

Frente a isso, assumindo plenamente a dimensão formadora que deve ter uma universidade, este artigo busca interrogar as práticas de escrita que se estabelecem no ensino superior, no sentido de tentar formular respostas para o significado conceitual-metodológico que a monografia, principalmente, na condição de trabalho de conclusão de curso, assume na academia.

1.1 PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO ENSINO SUPERIOR: uma discussão legal

Busca-se, nesta seção, apresentar partes do texto da Lei de Diretrizes e

Bases da Educação Nacional (LDBEN nº 9394/96) que reforçam a importância do incentivo, da produção e da difusão do conhecimento fruto das atividades acadêmicas, desenvolvidas em uma instituição de ensino superior.

Art. 43º. A educação superior tem por finalidade:

I - estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo;

I - incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive;

IV - promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicações ou de outras formas de comunicação;

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VI - estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais, prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade;

VII - promover a extensão, aberta à participação da população, visando à difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural e da pesquisa científica e tecnológica, geradas na instituição.

De acordo com o texto legal, ora apresentado, pode-se perceber que a universidade está centrada sobre a tríade ensino, pesquisa e extensão. Se a pesquisa deve ser entendida como a produção de conhecimento por uma comunidade de investigação e a extensão como uma forma de a universidade prestar serviços à comunidade, oferecendo cursos e atividades diversas, o ensino é, em geral, compreendido como o momento da transmissão do conhecimento.

Entretanto, a forma de ‘transmissão’ do conhecimento mudou, é claro, durante a história das universidades. Hoje não se pensa mais em uma atitude passiva do estudante, que deve simplesmente absorver as informações transmitidas pelo professor. Também em função da introdução da tecnologia da informação no ensino universitário, o professor é visto mais como um orientador de estudos, e do aluno universitário se espera uma postura ativa e reflexiva.

Na tentativa de melhor elucidar aspectos referentes à tripla função da universidade - ensino, pesquisa e extensão – apresenta-se, a seguir mais um item legal que visa a confirmar a importância desta relevante discussão que envolve a produção escrita no ensino superior.

Art. 52. As universidades são instituições pluridisciplinares, de formação dos quadros profissionais de nível superior, de ensino, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber humano, que se caracterizam por:

• produção intelectual institucionalizada mediante o estudo sistemático dos temas e problemas mais relevantes, tanto do ponto de vista científico e cultural, quanto regional e nacional; • um terço do corpo docente, pelo menos, com titulação acadêmica de mestrado ou doutorado; • um terço do corpo docente em regime de tempo integral.

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Por meio do art. 52 da LDBEN/96, pode-se perceber a relevância que a produção do conhecimento assume na formação do profissional de nível superior e, em especial, a produção escrita que se inicia na elaboração do projeto e se estende até a divulgação final da pesquisa empreendida

1.2 MONOGRAFIA: ATIVIDADE CURRICULAR OBRIGATÓRIA

Visando à efetivação dos propósitos do Ensino Superior atinentes à produção escrita, na década de 1980, já existiam iniciativas legais – Parecer, Resolução - emanadas do Conselho Federal de Educação, conforme se apresentam a seguir. Como é sabido, a monografia foi introduzida sob a forma de atividade curricular obrigatória pelos atos normativos de 1984, emanados do então CFE, por meio do Parecer CFE nº 375/84 e, sem seguida, pela Resolução CFE nº 1/84, para alguns cursos superiores, a exemplo do bacharelado em contabilidade. Como fora apresentado, as diretrizes curriculares decorrentes da nova LDB/96, neste começo do século XXI, também reafirmam a importância da produção e divulgação dos conhecimentos acadêmicos.

Em relação à orientação, atribuía-se o acompanhamento de um docente e, em resolução mais atual (Res. CES/CNE nº 4/2007; Art. 10 e seu Parágrafo único), fala-se em previsão da supervisão de um docente. Antes, previa-se o cumprimento de 2/3 da carga horária total do curso e, hoje, a qualquer momento, a ser fixado pela IES. E, finalmente, sem ser o item de menor importância, quanto a autoria, de trabalho individual, parra a não ser definido, o que leva a crer em produção plural.

Em suma, quais seriam os problemas, as lacunas em relação à produção escrita acadêmica, que têm levado muitas instituições de ensino superior a se silenciarem em relação à elaboração de uma monografia como um Trabalho de conclusão de Curso, sob a orientação de um professor?

Conforme se pode verificar, desenvolver pesquisa sobre o que tem sido produzido como trabalho monográfico no ensino superior apresenta grande relevância para a educação e formação de professores, além da preocupação em conhecer mais e melhor a maneira como se desenvolve o processo de aprender e ensinar, ler e escrever no ensino superior do Brasil. Assim, inicialmente, apresentase o seguinte problema: como os professores têm compreendido o que é uma monografia? Como orientadores, o que conhecem desse gênero textual? Qual

Editora KeimelionRevisores de textos http://www.keimelion.com.br conhecimento é essencial para o ensino? O que têm produzido de conhecimento referente à produção textual monográfica?

1.3 MONOGRAFIA: NATUREZA, FUNÇÃO E FORMA

Alguns autores, apesar de darem o nome genérico de monografia a todos os trabalhos científicos, diferenciam uns dos outros de acordo com o nível da pesquisa, a profundidade e a finalidade do estudo, a metodologia utilizada e a originalidade do tema e das conclusões (MARCONI e LAKATOS, 2003; MEDEIROS, 2003; SEVERINO, 2000).

Esses mesmos autores asseguram que um trabalho acadêmicocientífico propõe-se a investigar, de forma criteriosa e em acordo com as normas da metodologia científica, um problema relevante para a comunidade acadêmica e a sociedade em geral. Embora o estudante universitário não seja ainda um cientista formado, acredita-se que se encontra no caminho para a aprendizagem do processo de investigação científica.

Vários e diferentes conceitos sobre o que é uma monografia são defendidos por diferentes autores (SALVADOR,1997; RUIZ, 2002; SEVERINO, 2000). A partir dos conceitos apresentados, freqüentemente, podemos concluir que se trata de um estudo sobre um tema específico ou particular com suficiente valor representativo que obedece à rigorosa metodologia.

Lakatos e Marconi (2002), estudiosos da metodologia científica, asseguram que a monografia representa um trabalho escrito, sistemático e completo, com tema específico de uma área do conhecimento. Trata-se de um estudo detalhado, abordando vários aspectos do tema em destaque e obedecendo a determinados métodos de pesquisa. Assim, o trabalho monográfico contribui para a construção da ciência. Dessa forma, o texto escrito, por meio das formas lingüísticas, revela a condição de inserção do graduando na comunidade científica.

A monografia recebe diferentes nomenclaturas de acordo com o nível e a finalidade do trabalho acadêmico-científico. Na graduação, temos: i) Trabalho de Conclusão de Curso (TCC); i) Monografia de Conclusão de Curso (MCC); i) Trabalhos interdisciplinares, cujas denominações variam de acordo com a Instituição. Na pós-graduação (lato sensu, stricto sensu), as monografias se diferenciam pelo grau de aprofundamento do estudo em relação ao tema delimitado. Para a pós-graduação lato sensu, a monografia é a etapa final para

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Quanto à macroestrutura textual de uma monografia, em geral, vêse normatizada pela ABNT e, como se não bastassem tantas normas, várias instituições de ensino, notadamente universidades, também iniciariam um processo de individualização, incorporando orientações da ABNT, ao mesmo tempo em que começaram a criar algumas normas próprias.

1.4 MONOGRAFIA COMO ATIVIDADE METADISCURSIVA

Parece óbvio que os materiais em circulação na esfera acadêmica sejam artigos, resenhas, resumos, monografia, mas, não parece óbvio que como tais, alguns desses materiais poderiam ser aprendidos e ensinados, com repercussão negativa no campo pedagógico. Em todo caso, se para cada gênero há uma expectativa (normas, rotinas, deveres e direitos) para locutores e destinatários, o importante é organizar o intercâmbio efetivo e assim assegurar, como disse Maingueneau (1999), que as interações sociais sejam eficazes – apesar das variações inevitáveis.

Dado o caráter de acontecimento materializado, segundo Maingueneau (1999), uma dissertação escolarizada pode servir para ‘treinar” uma categoria dissertativa estabelecendo quais sequências podem ser utilizadas em sua construção, a “estabilidade” de certas seqüências, uma vez que a presente discussão se volte para uma produção mais ritualizada. Se detectar seqüências que mostram tipos de organização textual

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