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Revista Conhecimento Online – Ano 1 – Vol. 1 – Setembro de 2009 w.feevale.br/revistaconhecimentoonline

Ernani Cesar de Freitas1

O fio condutor deste artigo conduz-nos à reflexão sobre o que seria uma comunicação eficaz no contexto organizacional, considerando a inter-relação linguagem e trabalho. A teoria Semiolinguística, um dos referenciais teóricos utilizados para análise do funcionamento da comunicação e das competências de linguagem, permite dar conta da dinâmica dos intercâmbios linguísticos, sob um novo enfoque. Os interlocutores não podem ser definidos em termos de “emissor que produz uma mensagem/destinatário que recebe essa mensagem”, mas como “sujeitos sociais” que interagem na e para a construção do sentido. Considerar o ato de linguagem no âmbito dessas relações intersubjetivas significa considerar o sentido como imanente à situação de comunicação, fazendo emergir os parâmetros contextuais que condicionam as manifestações linguageiras. Palavras-chave: Linguagem. Trabalho. Discurso. Comunicação. Organizações.

This article leads to the reflection of what an efficient communication would be in the organizations context, considering the mutual relation between language and work. The semiolinguistics theory, one of the theories used to analyse how communication works, as well as language competences, take into account the urge of linguistic interchange upon a new approach. The interlocutors cannot be defined as simple sender or receiver of a message, but as social subjects who interact in and to the construction of sense. Considering the act of language in the field these intersubjective relations means considering the sense as inherent to the situatuion of communication so as to make conceptual parameters merge, those which limit the language manifestation. Keywords: Language. Work. Discourse. Communication. Organizations.

1Doutor em Letras, área de concentração Linguística Aplicada (PUCRS). MBA Executivo em Gestão Empresarial (FGV-RJ). Coordenador do curso de pós-graduação em Gestão Empresarial – Ênfase em Serviços. Professor pesquisador do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) da Feevale. E-mail: ernanic@feevale.br

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Nos últimos anos, frequentes têm sido as contribuições advindas dos estudos da linguagem para melhor compreender a vida social e assim auxiliar a resolver os problemas de comunicação de uma sociedade moderna altamente complexa. Nesse contexto, vêm se destacando as abordagens sobre as relações entre Linguagem e Trabalho, que visam não só a descrever e a analisar interações em diferentes tipos de atividades profissionais, como também a colaborar para um melhor entendimento dos rituais sociais que ali se praticam.

O padrão produtivo taylorista-fordista, que vigorou durante praticamente todo o século X, em que a atividade de trabalho se reduz a uma ação mecânica e repetitiva, começa a ser questionado. A resposta capitalista ao esgotamento desse padrão provoca o surgimento de outros modelos organizacionais, em que as empresas passam de uma estrutura piramidal para uma estrutura em rede; da organização hierárquica para a organização descentralizada, prevendo-se, pelo menos na esfera do discurso, uma maior participação dos trabalhadores (ANTUNES, 2001).

De fato, os sistemas produtivos contemporâneos descobrem que engajar o trabalhador em grupos destinados a discutir seu trabalho e desempenho pode ser um fator de melhoria da produtividade. A palavra assume, então, nesse contexto, lugar de destaque e, dessa forma, torna-se absolutamente pertinente o surgimento do interesse pela dimensão linguageira do trabalho.

Atualmente, sociólogos, filósofos e profissionais de outras áreas estão mais atentos à importância das atividades linguageiras que tecem o cotidiano. “O emprego está em crise e a natureza do trabalho mudou: os estudiosos do assunto proclamam a importância crescente do escrito nas organizações, a formalização de informações, a evolução da tecnologia com o desenvolvimento da informática, a utilização da reunião como instrumento de gestão, etc.” (SOUZA-E-SILVA, 2001, p. 131). Encontra-se em descrédito a visão abstrata das atividades produtivas, que relegava a segundo plano as trocas simbólicas, predominante num passado recente.

Boutet (1995, p. 17) afirma que “a linguagem é uma das práticas sociais pelas quais os indivíduos constroem, transformam ou negam seu pertencimento a um grupo, a um coletivo e a um gênero”. Essa autora (1993, p. 58) comenta que “se pode distinguir esquematicamente duas grandes concepções modernas da linguagem no trabalho: (1) a linguagem é proibida e estigmatizada no taylorismo pelas empresas no início do século; (2) a

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No entanto, o estatuto da linguagem no trabalho é mais complexo do que parece. De um lado, ela é objeto de abordagens tecnológicas, como nos dispositivos de extração de conhecimentos destinados à constituição de sistemas informatizados, mas, de outro, ela é parte constitutiva da construção dos coletivos no trabalho; é o vetor da transmissão dos saberes (BOUTET, 1995).

Para Souza e Silva (2001), a opção pelo estudo das práticas de linguagem em situação de trabalho exige, dada a natureza do espaço em que se insere, a abertura das teorias linguísticas a outros campos de investigação. Teixeira (2001) sugere a instituição de um espaço teórico caracterizado pela indissociabilidade entre as formas linguísticas e seu funcionamento em discursos socialmente situados, de acordo com o postulado fundamental de que a matéria linguística constitui elemento necessário à construção do sentido do discurso, mas não suficiente, pois essa matéria, uma vez proferida, adquire, por meio da enunciação, um conjunto de propriedades não redutíveis à pura forma.

Este estudo é resultado de uma pesquisa exploratório-qualitativa, a partir de bibliografias que, no conjunto de abordagens linguísticas, dialogam com as ciências do trabalho, através do que situamos, então, nossa “reflexão” na perspectiva Semiolinguística de análise do discurso de Charaudeau (1983, 1992, 2001, 2008), segundo a qual o sentido do discurso depende das circunstâncias da enunciação e dos destinatários aos quais o discurso é dirigido. Trata-se de uma teoria que não despreza aquisições resultantes de pesquisas em etnometodologia, em antropologia, em sociologia, nem tampouco as aquisições da pragmática e do dialogismo bakhtiniano.

Apresentamos na sequência o embasamento teórico que dá base a este trabalho, cujo conteúdo é representado pelos itens “A comunicação nas organizações” e “Contrato de comunciação e mise en scène”.

De modo geral, as organizações procuram demonstrar (ou gostam de pensar) que operam por meio de processos extremamente racionalizados, sobre os quais exercem absoluto controle. Dentro dessa perspectiva, a administração de uma empresa é vista como capaz de

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Entretanto, conforme assinala Morgan (1996, p. 20), “as organizações são geralmente complexas, ambíguas e paradoxais. O real desafio é aprender a lidar com essa complexidade”. Pressupomos que é possível analisar qualquer organização como um organismo permeado por interesses que precisam ser administrados. Nasce daí a importância da comunicação dentro da empresa.

As organizações contemporâneas têm, de um modo geral, valorizado a linguagem como componente fundamental de sua comunicação interna que visa ao alcance de suas metas e seus propósitos organizacionais, maximizando fatores como produtividade, rentabilidade e a própria gestão. Boutet (1993, p. 59) lembra que as organizações pós-taylorianas têm bem compreendido a importância da comunicação no trabalho, colocando em primeiro plano a inteligência e a criatividade das pessoas, pois elas promovem as “empresas comunicantes” [...]. As organizações contemporâneas do trabalho reconhecem a linguagem como um fator de produtividade: ela não se opõe ao rendimento econômico, mas, ao contrário, o favorece.

Essa mudança, que veio na esteira da obsolescência relativa do modelo taylorista, implica progressivamente todos os níveis hierárquicos e assume principalmente a face de programas de qualidade, de grupos de expressão, iniciativas múltiplas do gerenciamento participativo que explicitam a função ativa desempenhada pela palavra como instrumento de gestão, de produção e de mobilização social (SOUZA-E-SILVA, 1999).

Halliday (1987) discute a importância de uma retórica organizacional, na medida em que toda organização precisa justificar sua existência, quer para o ambiente social em que se insere, quer para os seus próprios funcionários, a fim de conseguir sua adesão a seus princípios e a seu modo de condução de processos.

Nesse sentido, para atingir seus objetivos estratégicos, as organizações hoje se utilizam de vários veículos de comunicação interna (TV, jornal, revistas, Internet, intranet) e gêneros e tipos textuais/discursivos diversos, tais como informativos diários, cartilhas, instruções normativas, regulamentações, reuniões etc. A linguagem vista como elemento central da situação de trabalho, utilizada nesses múltiplos canais de comunicação interna, pode revelar-se como meio privilegiado de conhecermos a realidade das atividades de trabalho, o modo como a empresa representa seus funcionários.

Por isso, atualmente, os escritos organizacionais têm sido objeto de atenção dos pesquisadores que se ocupam da articulação linguagem e trabalho. Não são poucas as organizações que apontam as comunicações escritas como foco de problemas. Duarte e

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Feitosa (1998) chamam a atenção para as constantes demandas por cursos de redação técnica, feitas pelos setores responsáveis por formação e treinamento de pessoal. Os cursos acontecem, mas os problemas continuam, o que demonstra que sua causa transcende os aspectos relativos à boa formação textual.

No contexto empresarial, comunicar significa, simplesmente, transmitir informações de um emissor a um destinatário. Em geral, é essa visão ingênua da comunicação que está embutida nas novas formas de gestão e, quando as empresas manifestam preocupação em melhorar a comunicação entre os trabalhadores e as chefias ou entre trabalhadores e trabalhadores, estão pensando em aprimoramento de linguagem, diagramação mais criativa etc. Subjaz a essa concepção de comunicação o modelo tradicional, representado pelo esquema clássico que contempla: Emissor–Mensagem–Receptor, em que está pressuposto um processo simétrico entre as instâncias de produção e recepção da mensagem. Esse esquema preocupa-se prioritariamente com a integridade material da mensagem durante o processo da comunicação, sem levar em conta os efeitos que ela poderia causar no receptor.

Sabemos, contudo, que a abertura de espaços para a comunicação organizacional não garante que haja compreensão entre os trabalhadores ou entre estes e as chefias. A própria linguagem pode se constituir como um obstáculo ao diálogo no local de trabalho, apresentando-se como fonte de mal-entendidos, pois o processo de comunicação é bem mais complexo do que imagina o senso comum.

Vários autores vêm problematizando os modelos clássicos de comunicação.

Orecchioni (1980, p. 17), por exemplo, considera “impróprio descrever-se o emissor como alguém que, para construir sua mensagem, escolhe livremente esse ou aquele item lexical, essa ou aquela estrutura sintática no estoque de suas aptidões lingüísticas, tirando desse imenso depósito, sem qualquer restrição, o que tem a dizer”. Na verdade, há filtros que limitam as possibilidades de escolha e que dependem de dois tipos de fatores: 1) as condições concretas da comunicação; 2) as naturezas temáticas e retóricas do discurso, isto é, grosso modo, as restrições de gênero.

Charaudeau (1983, p. 38) também se contrapõe ao esquema simétrico de Jakobson (1993, p. 123)2, no qual um ato de comunicação supõe a transmissão de uma mensagem de

2 A interpretação de que Jakobson produziu um esquema simétrico de comunicação não é consensual. Peytard e Moirand (1992, p. 110) recomendam que a leitura do esquema de comunicação de Jakobson não deve ser feita separadamente da análise das funções da linguagem, da análise dos dois tipos de afasia em que a dialética da metáfora e da metonímia é tornada evidente e do estudo sobre os embrayeurs. Se separarmos a apresentação dos polos do esquema desses aspectos, tudo isso é simétrico. Na opinião desses autores, fazer essa separação é retirar de Jakobson o que o define: pensar o funcionamento da língua na instauração do discurso. Neste artigo, não entraremos nessa discussão, que, por si só, demandaria uma outra pesquisa.

Revista Conhecimento Online – Ano 1 – Vol. 1 – Setembro de 2009 w.feevale.br/revistaconhecimentoonline 6 um emissor para um receptor3, que possuem em comum, ao menos parcialmente, o código necessário para a transcrição (codificação/decodificação) da mensagem, colocando em evidência a assimetria entre os processos de produção e interpretação dessa mensagem. O autor vê o TU não como um simples receptor, mas sim como um sujeito que elabora uma interpretação em função do ponto de vista que ele tem sobre as circunstâncias do discurso e sobre o EU. O EU, por sua vez, descobrindo que o TU-interpretante não é o mesmo que ele imagina, descobre-se como um outro EU, sujeito falante fabricado pelo TU-interpretante.

Patrick Charaudeau (1983, p. 8-9) destaca duas grandes linhas que algumas teorias linguísticas e semióticas propõem como diferentes atitudes frente à linguagem: a) uma certa posição teórica consiste em conceber o ato de linguagem como produzido por um emissorreceptor ideal em uma circunstância de comunicação neutra. Nessa perspectiva, a linguagem é vista como um “objeto transparente”. O processo de comunicação sendo simétrico, o receptor só tem que percorrer em sentido inverso o movimento de transmissão da fala para encontrar a intencionalidade do emissor; b) uma outra posição teórica consiste em conceber o ato de linguagem como produzido por um emissor determinado num contexto sócio-histórico dado. Nessa perspectiva, a linguagem é um “objeto não transparente”. De fato, nessa segunda posição, o processo de comunicação não decorre de uma única intencionalidade, pois é preciso levar em consideração não somente o que poderiam ser as intenções declaradas do emissor, mas também o que diz o ato de linguagem e que decorre da relação particular que une o emissor ao receptor.

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