Apostila de Execução de Detalhamento

Apostila de Execução de Detalhamento

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projeto de interiores apostila de projeto executivo e detalhamento porfírio valladares danilo matoso

2o. semestre de 2002 Escola de Arquitetura da UFMG - Departamento de Projetos projeto de interiores . apostila de projeto executivo e detalhamento 2

1. Introdução

Esta apostila não tem a pretensão de constituir um manual completo e abrangente sobre estratégias possíveis para a elaboração de projetos executivos e de detalhamento. Trata-se apenas de uma síntese de diversas experiências em arquitetura adquiridas ao longo do tempo. Com a prática, cada arquiteto acaba por desenvolver seus próprios métodos e convicções acerca dos modos de abordagem do desenho técnico como meio de solução construtiva e representação destinada à execução.

Muitas vezes uma visita ao canteiro de obras e o simples diálogo com os executores substitui diversas pranchas de detalhamento. O conhecimento dos materiais e técnicas construtivas é, na verdade, uma premissa básica para a concepção de um bom projeto. Convém ainda lembrar que de nada serve um detalhamento desenhado à perfeição se a mão-de-obra que o executa não possui formação técnica para compreendê-lo corretamente - ocorrência tristemente comum. Ou seja: via de regra, prevalece a simplicidade construtiva à qual a mão-de-obra local é habituada ao “malabarismo” gráfi co de detalhamentos excessiv amente comple xos .

Entretanto, o desenho é uma poderosa ferramenta analítica para o próprio criador. Mais que um mero instrumento de comunicação entre arquiteto e o executor, as projeções ortográfi cas permitem ao profi ssional bem treinado na sua leitura e entendimento uma maior familiaridade com os elementos constitutivos do objeto último de seu trabalho: a obra construída. É nesse sentido pragmático que orientamos esta apostila, na esperança que ela possa servir como um roteiro metodológico inicial para o estudante de arquitetura.

2. Projeto Executivo

2.1. Compatibilização

O projeto executivo sintetiza diversas informações necessárias à construção. Sua confecção implica não apenas num amadurecimento pleno das relações entre arquiteto e cliente mas também na compatibilização dos projetos complementares referentes à obra. É na elaboração do projeto executivo que o arquiteto estabelece o diálogo entre estas diversas partes constitutivas do projeto fi nal.

Comumente, os projetos complementares têm procedências diversas e, embora os arquitetos sejamos habilitados a elaborar todos estes elementos, a crescente especialização das áreas encaminha a prática cotidiana do arquiteto para a coordenação dos diversos profi ssionais. É fato recorrente ainda que a urgência dos proprietários leve ao lamentável início das obras tão logo o projeto estrutural esteja concluído. Cabe ao arquiteto o dever de alertá-los dos confl itos de solução certamente onerosa que surgirão sem uma compatibilização correta concluída antes da execução de qualquer elemento do projeto. Uma boa estratégia é listar e sistematizar todos os agentes envolvidos para o cliente, levando-o à compreensão dos prejuízos potenciais.

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2.1.1. Projeto estrutural

Caso o projeto possua algum mezanino, ou redistribua cargas de paredes portantes numa construção existente, elementos estruturais estarão certamente envolvidos. A estrutura é afetada sobretudo quando da necessidade de passagem horizontal de tubulação hidráulica do pavimento superior ou de ventilação e condicionamento de ar do pavimento inferior. No caso de reformas, a distribuição de pilares também costuma ser problemática, dada a exigüidade dos ambientes tratados. Em mezaninos de lojas comerciais, comumente os pilares são deslocados para o perímetro do ambiente fi cando ocultos sob um enchimento de alvenaria. Na maioria dos shoppings, é permitido ao lojista descarregar cargas somente sobre a laje de piso, pelo que pórticos sucessivos que atirantam o mezanino por cima são soluções bastante comuns.

Obviamente, no caso de reformas de edifi cações existentes, seu projeto estrutural original deve, sempre que possível, ser consultado antes da elaboração do anteprojeto. Esqueletos estruturais de concreto armado suportam bem a relocação de paredes de vedação somente se o seu volume fi nal não excede em muito o volume original de alvenaria para o qual o edifício foi projetado. Quando isto ocorre, adota-se comumente painéis divisórios mais leves, em concreto celular autoclavado (Sical) ou em painéis sanduíche de gesso acartonado (Gypsum). Caso não seja possível ter acesso ao projeto estrutural original, quer seja pela idade avançada do edifício quer seja por questões de prazo, um diagnóstico do sistema estrutural deve ser elaborado e a responsabilidade pela estabilidade da construção deve fi car bem clara antes do início dos trabalhos. Trata-se de uma defi nição importante e séria, pois há casos reais de desabamento de edifícios por demolição de paredes estruturais e até de pilares.

2.1.2. Projeto hidráulico

O encaminhamento das tubulações de água fria, água quente, esgoto e águas pluviais deve estar bem defi nido e faz parte da tarefa do arquiteto antever o espaço necessário para que isso ocorra sem confl itos com forro, estrutura, piso e alvenarias.

Convém lembrar que em locais com ralos e/ou vasos sanitários é necessário um espaço horizontal abaixo do piso para o percurso do esgoto até os tubos de queda. Um tubo proveniente de um vaso sanitário possui 100mm de diâmetro e deve ter caimento de, no mínimo, 2%. Uma caixa sifonada possui entre 15cm e 25cm de altura. Estas dimensões relativamente avantajadas são decisivas para a determinação de alturas de entreforros bem como para reformas e relocações de banheiros em edifícios residenciais. É necessário especial cuidado ainda na localização de tubulação vertical do edifício, no caso de reformas, pois desviá-la é inviável e a parede onde ela se encontra embutida deve ser mantida. Em construções mais recentes, o uso de shafts inspecionáveis tem se generalizado, facilitando a identifi cação dos locais onde se encontra a tubulação.

2.1.3. Projeto de prevenção e combate a incêndio

Além da regulamentação da ABNT (NB-9077) acerca de dimensões de peitoris, guarda-corpos e saídas de emergência, em instalações comerciais deverá ser elaborado um projeto específi co de prevenção e combate a incêndio, a ser aprovado pelas autoridades locais competentes. Isto envolverá equipamentos específi cos tais como extintores, iluminação de emergência e uma rede de aspersores d’água (sprinklers) afi xada junto ao teto. Seu espaçamento varia de acordo com a área e o pé-direito do ambiente e eles são também abastecidos por uma tubulação hidráulica pressurizada.

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2.1.4. Projeto de ventilação, exaustão e condicionamento de ar Sobretudo em estabelecimentos comerciais e escritórios, a rede de encaminhamento de ar constitui um importante elemento na concepção dos interiores. As avantajadas seções da tubulação, a presença de grelhas de aspersão e exaustão de ar bem como o maquinário necessário exigem do arquiteto especial atenção e diálogo com os profi ssionais encarregados deste projeto complementar. A tubulação deste sistema é a principal responsável pela determinação de alturas de entreforros, e a disposição das aberturas é mais um elemento a ser considerado nos lay-outs de forro .

2.1.5. Projeto luminotécnico

Assim como a estrutura, o projeto luminotécnico defi nitivo é elaborado a partir de uma defi nição inicial do arquiteto. Comumente, desde o anteprojeto o arquiteto elabora uma “planta de forro e sugestão do luminotécnico”. A partir dela, estabelece-se um diálogo com fornecedores de luminárias e lâmpadas para estabelecer-se o lay-out defi nitivo da iluminação. Equipamentos importados de iluminação atingem valores estratosféricos, e os projetistas dos fornecedores não hesitam em usá-los. É o arquiteto quem defi ne a necessidade deste tipo de material, visando o interesse do cliente e buscando sempre a solução plasticamente correta e economicamente viá vel.

A primeira apostila desta disciplina já trata deste tema de modo abrangente, e nele não nos deteremos.

2.1.6. Projeto de conforto acústico

Não apenas em auditórios, estúdios e teatros, mas também em ambientes amplos de um modo geral, como praças de alimentação, grandes restaurantes, locais próximos a fontes de ruído etc. é necessário um correto cálculo de conforto acústico. A complexidade do cálculo é proporcional à especifi cidade do uso em função de fatores acústicos. Trata-se de uma tarefa cada vez mais facilitada por novos softwares existentes. Entretanto, cabe ao arquiteto discernir quanto à necessidade de contratação de um consultor especialista no assunto. Na área de estúdios musicais, por exemplo, os cálculos de isolamento e reverberação são bastante determinados, e necessariamente demandam a assistência de um especialista desde o primeiro momento do anteprojeto. Comumente, a reverberação descontrolada é o fator multiplicador de ruído em grandes ambientes, demandando tratamento das superfícies no sentido de aumentar a área de absorção do som.

2.1.7. Projeto elétrico, de telefonia, rede lógica, sonorização, automação e segurança

Comumente estes projetos são feitos pelo mesmo profi ssional: o engenheiro eletricista. A compatibilização do arquiteto aqui vai desde uma adequada localização de quadros medidores, quadros de distribuição, tomadas, interruptores, telefones, interfones, pontos de lógica, câmaras e sensores de vigilância até o encaminhamento dos conduítes no interior da estrutura (fator crítico próximo aos quadros de distribuição de circuitos). É o arquiteto ainda quem faz a triangulação entre o cliente ,o engenheiro e os fornecedores.

Os espelhos de acabamento dos equipamentos são comumente padronizados para fi xação em caixas embutidas nas lajes e alvenarias (2”x4”, 4”x4” e octogonais de 3”). Sua altura e disposição fi ca a critério do arquiteto, variando de acordo com as necessidades de projeto. As alturas usuais de interruptores estão entre 105cm e 115cm do piso. Tomadas normalmente são implantadas a 30cm de altura. É claro que situações específi cas determinam alturas diferentes, como, por exemplo, tomadas situadas acima de bancadas e para equipamentos elevados, interruptores para acionamento a partir da cama (h=80cm) etc..

Com o desenvolvimento das recentes tecnologias digitais, cada vez mais é necessário dotar os antigos pontos de antena e telefonia projeto de interiores . apostila de projeto executivo e detalhamento 5 de contato com uma fi ação de rede de informática. O cabeamento de rede lógica deve ser conduzido por eletrodutos específi cos e em separado, de modo a evitar interferência por indução eletromagnética de outras redes. Em grandes empreendimentos, é comum a opção pelo cabeamento estruturado. Trata-se de uma tecnologia de separação de sinais por freqüência que permite a condução de telefonia e lógica pelo mesmo cabo. O sistema a ser adotado deve ser discutido com o engenheiro eletricista e o proprietário, de acordo com os interesses do último neste campo, conciliando até mesmo elementos de automação (portões eletrônicos, ar condicionado etc) dentro desta nova integração.

2.2. Desenhos do projeto executivo

Tendo sido discutidos todos os projetos complementares com seus autores e com o proprietário, elabora-se o projeto executivo propriamente dito. O projeto executivo de interiores deve possuir os seguintes desenhos (*):

.plantas .gerais .de alvenarias .de piso .de teto .de lay-out .cor tes .ele vações

2.2.1. Plantas gerais

- Indicação de eixos de coordenadas do projeto (normalmente usam-se letras para determinar os eixos numa direção e números na direção perpendicular). - Indicação dos elementos do sistema estrutural (pilares), com distinção gráfi ca entre estes e as vedações. Com sua denominação (i.e. “P01”, “P23” etc.) e dimensionamento de “osso” coincidentes com a nomenclatura adotada no projeto estrutural. - Vedações internas e externas.

- Indicação de cotas parciais, entre coordenadas e cotas totais.

- Cotas de desenho, em pormenor, dos locais que não serão desenhados em escala maior. - Especifi cação de materiais, tanto quanto possível para a compreensão do desenho. - Representação de dutos e prumadas hidráulicas verticais, com a nomenclatura e dimensionamento adotados no projeto hidráulico. - Representação de pontos fi nais constantes no projeto elétrico, de telefonia, rede lógica, sonorização, automação e segurança, também adotando a nomenclatura usada nestes projetos. - Circulações verticais e horizontais.

- Áreas de instalações técnicas e de serviços (i.e. fan-coil etc.)

- Acessos e demais elementos signifi cativos.

- Codifi cação dos elementos a serem detalhados: portas, janelas, escadas, mobiliário, entre outros. - Marcação de cortes e elevações.

- Marcação e numeração dos detalhes e ampliações. Portas e janelas são numeradas linearmente com o prefi xo “P” e “J”, respectivamente. A codifi cação dos demais detalhes é feita por numeração simples, incluindo as áreas molhadas. Para controle, elabora-se uma lista de detalhes do projeto. - Marcação de projeção de elementos signifi cativos acima ou abaixo do plano de corte.

(*) Listagem elaborada a partir da experiência prática, associada às listagens da AsBEA in: ASSOCIAÇÃO Brasileira de Escritórios de Arquitetura. Manual de contratação de serviços de arquitetura e urbanismo. São Paulo: Pini, 1992. p.46-5.e da NBR-6492 in: ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR-6492 - representação de projetos de arquitetura. Rio de Janeiro: ABNT, abr.1994. p.7-9.

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- Indicação de níveis acabados. - Títulos, escalas, notas gerais, desenhos de referência, tabelas de portas e esquadrias e carimbos. As observações gerais mais comumente usadas são: “Conferir medidas no local” e “Em caso de dúvida, consultar o arquiteto.”

Figura 1a: Exemplo de planta geral e de alv enar ias integ rada. escala: 1:200 escala original: 1:50 projeto de interiores . apostila de projeto executivo e detalhamento 7

Figura 1b: Pormenor da planta anterior em escala original (1:50) projeto de interiores . apostila de projeto executivo e detalhamento 8

2.2.2. Plantas de alvenarias

- Indicação das alvenarias, com espessuras “em osso” e acabadas. Adota-se planta de alvenarias quando há sutilezas de difícil representação na planta geral, i.e. alinhamentos em relação aos eixos do projeto e à estrutura, relação entre alvenarias demolidas - no caso de reformas -, alvenarias mantidas e alvenarias construídas. Caso seja possível o uso de cores, o usual é amarelo para as alvenarias removidas, vermelho para as alvenarias construídas e branco para as alvenarias mantidas. Normalmente, as diferentes espessuras de alvenarias diferenciam-se ainda através de hachuras distintas. - Cotas parciais e totais

- Legendas das cores e hachuras usadas de acordo com a convenção descrita acima. - Títulos, escalas, notas gerais, carimbo etc.

2.2.3. Plantas de piso

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