Uma abordagem prática da botânica no ensino médioeste assunto contribui com a construção dosconhecimentos dos alunos

Uma abordagem prática da botânica no ensino médioeste assunto contribui com a...

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Ivone dos Santos Siqueira*, Elci Ferreira Mendes Piochon**, Samuel Mariano-da-Silva**

Siqueira IS, Piochon EFM, Mariano-da-Silva S. Uma abordagem prática da Botânica no Ensino Médio: este assunto contribui com a construção dos conhecimentos dos alunos? Arq Mudi. 2007;1(1):5-12.

RESUMO. Os resultados dos exames SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica) e ENEM (Exame Nacional de Ensino Médio) revelam que o Ensino Médio apresenta uma baixa qualidade, em especial no município de Jataí-GO. De maneira geral, estes resultados poderiam ser melhorados se o conteúdo ministrado fosse complementado com aulas práticas, diferenciando-se, assim, do modelo convencional. O presente trabalho foi realizado no Colégio Estadual João Roberto Moreira, localizado no município de Jataí-GO, com o objetivo de avaliar e quantificar a importância de uma abordagem prática no Ensino Médio. Ele se apoiou na aplicação de um questionário antes da realização das aulas, no início do terceiro bimestre, e outro no final das aulas, no final do quarto bimestre, em quatro turmas do segundo ano. A análise estatística dos resultados detectou que houve diferença significativa entre as médias obtidas pelas turmas que não tiveram aulas práticas, comparando com as médias obtidas pelas turmas com aulas práticas. Este resultado demonstra claramente que as aulas práticas são um valioso instrumento na assimilação dos conteúdos ministrados, bem como na formação de um aluno autônomo.

PALAVRAS-CHAVE: estratégias de aprendizagem; desempenho escolar; Ensino Médio.

Siqueira IS, Piochon EFM, Mariano-da-Silva S. A practical approach of Botanic in Medium School: this subject contributes to the construction of students’ knowledge? Arq Mudi. 2007;1(1):5-12.

ABSTRACT: The results in SEAB exams (National System of Evaluation of Basic Education) and in ENEM exams (National Exam of the Medium School) reveal that medium school has low quality, especially in Jataí-GO. In general, these results could be improved if the subjects being studied were complemented with practice classes, therefore becoming different from the conventional model. The present work was carried out at the State School João Roberto Moreira, in the town of Jataí-GO, with the purpose of evaluating and quantifying the importance of a practical approach in Medium School. It was based on a questionnaire applied before the classes, at the beginning of the third term, and other after the classes, at the end of the fourth term, in four classes of the second year. The statistical analysis of the results detected that there was a significant difference between the averages obtained by the students that did not have practice classes and those of the students having practices. This results clearly demonstrates that practice classes are a valuable tool in the learning of the contents, as well as in the formation of an autonomous student.

KEY WORDS: learning strategies; school performance; medium school.

As aulas práticas fazem parte do cotidiano escolar dos alunos há várias décadas. O objetivo dessas aulas é facilitar o entendimento do aluno,

*Acadêmico do Curso Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Goiás, Campus Jataí (UFG/CAJ), e-mail: siqueiraivone@bol.com.br; **Docentes da Universidade Federal de Goiás, Campus Jataí, Centro de

Ciências Agrárias (UFG/CAJ/CCA), e-mail: piochon2001@yahoo.fr.; Universidade Federal de Goiás, Campus Jataí, Centro de Ciências Agrárias (UFG/CAJ/CCA), tel.: (64)632-2130, Fax (64)632-1510, email: smarianos@uol.com.br Caixa Postal: 03, CEP 75.800-970, Jataí-GO.

Siqueira IS, Piochon EFM, Mariano-da-Silva S. Uma abordagem prática da Botânica no Ensino Médio: este assunto contribui com a construção dos conhecimentos dos alunos? Arq Mudi. 2007;1(1):5-12.

proporcionando a construção de um conhecimento científico sólido, a partir da utilização do laboratório e de materiais contextualizados com o cotidiano do aluno.

Atualmente, os textos oficiais, como os

Parâmetros Curriculares do Ensino Médio (PCNEM) (Brasil, 1999), incentivam a formação de alunos críticos e capazes de raciocinar cientificamente com autonomia. Para que ocorra tal evolução, as aulas práticas são essenciais, e esses mesmos textos incentivam também a utilização de novas tecnologias1 disponíveis, a fim de facilitar a compreensão dos conteúdos e de fazer desenvolver nos alunos as capacidades do saber fazer experimental (Piochon, 2002).

Nos últimos vinte anos, várias pesquisas tentaram aperfeiçoar o ensino de biologia em relação à evolução dos conteúdos e da tecnologia. Esta constatação é confirmada pela implantação dos PCNEM, em 1999, em todo o território nacional. Esses parâmetros sugerem que o ensino da biologia seja fundamentado sobre o raciocínio científico e o procedimento experimental. Assim, o aluno é levado a aprender a apreender dados, bem como outros procedimentos para desenvolver seu espírito crítico o senso de investigação (Piochon, 2005). A autora ressalta, ainda, que as aulas práticas permitem a diversificação do trabalho pedagógico e, ao mesmo tempo, possibilita ao aluno o contato com as novas tecnologias.

Apesar das diretrizes que pretendem melhorar o perfil e a formação do aluno do Ensino Médio existirem desde 1999, os resultados dos exames SAEB e do ENEM no estado de Goiás revelam que o Ensino Médio apresenta baixa qualidade, em especial aqueles realizados no município de Jataí (Brasil 2004a; Brasil 2004b; Brasil, 2004c). O baixo desempenho dos alunos revela a sua dificuldade em compreender conceitos intrínsecos às diversas áreas do conhecimento.

A complexidade da tarefa educativa nos exige dispor de instrumentos e recursos que favoreçam a tarefa de ensinar. A aprendizagem dos conteúdos de botânica exige atividades práticas que permitam aos alunos vivenciar os conteúdos teóricos previamente trabalhados de forma contextualizada (Krasilchik, 1996).

A idéia central deste estudo é examinar em que proporção as aulas práticas de botânica

1Entendemos aqui como novas tecnologias, os equipamentos informáticos e informatizados assim como os equipamentos existentes nos laboratórios que propiciam o desenvolvimento das aulas práticas.

favorecem a construção do conhecimento dos alunos e a assimilação dos conteúdos propostos pelo currículo do Ensino Médio. Essas reflexões levaram-nos a formular algumas perguntas importantes e complementares, relacionadas aos benefícios das aulas práticas propostas aos alunos do ensino Médio e para as quais tentaremos responder: Que contribuição à aula prática é suposta desenvolver com relação ao aprendizado científico dos alunos? Como julgar a validade das aulas práticas? Quais são as competências argumentativas que os alunos desenvolvem durante as aulas práticas? Quais são as dificuldades dos alunos e como remedia-las?

O objetivo deste trabalho foi o de avaliar e quantificar a importância de uma abordagem prática na disciplina de Botânica, no Ensino Médio.

A contribuição das aulas práticas

A respeito da importância do ensino experimental, Piochon (2002) apontou que as aulas práticas são decisivas para o aprendizado das Ciências, salientando que elas contribuem nos procedimentos da formação científica, como a observação, a manipulação e a construção de modelos, entre outros. Esta realidade estranha e desconhecida ao estudante, que pela primeira vez entra em contato com um estudo mais aprofundado e interessante, pode ocasionar dificuldades ou até mesmo frustrações em relação à construção de seu conhecimento, se o professor não estiver preparado para administrar a diversidade existente na classe.

As aulas práticas devem permitir ao estudante observar, vivenciar e discutir um conjunto de experimentos, fenômenos biológicos e físicoquímicos. Este momento privilegiado no ensino médio deve ser aproveitado para o aprofundamento de conceitos, tendo um caráter muito mais qualitativo e formativo (Majerowicz, 2001).

Um grande número de alunos do Ensino

Médio poderá não ter participado de aulas práticas de laboratório ou vivenciado processos de investigação científica, ainda que em nível de baixa complexidade. Porém, as práticas de biologia, mais especificamente de botânica, visam a incentivar uma avaliação que valorize a compreensão e a interpretação da natureza (Krasilchik, 1996).

Experimentar é mais que aplicar receitas, é o que afirma Clement (1999). Esta afirmação é séria e importante, pois muitas vezes o professor, ao impor que o aluno siga uma receita em uma aula

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prática, o impede de aprender com seus próprios erros e, assim, evoluir em seu aprendizado.

O Ensino de Botânica no Ensino Médio foi acompanhado em quatro turmas do Segundo Ano, turno noturno, do Colégio João Roberto Moreira, município de Jataí-GO, durante o ano letivo de 2004. As turmas foram, aleatoriamente, distribuídas em dois grupos de duas turmas cada. Durante o terceiro e o quarto bimestre letivo, a teoria foi trabalhada, igualmente, pelo mesmo professor, nos dois grupos. Em um dos grupos (Grupo B), o conteúdo foi complementado com aulas práticas, sendo estas planejadas e realizadas de acordo com o currículo do ensino Médio para a série, sob a supervisão do professor da disciplina.

Para efeitos comparativos, no início do terceiro bimestre, foi aplicado um primeiro questionário contendo dez questões subjetivas (Quadro 1). As perguntas estavam relacionadas ao conteúdo de Botânica; ao grau de dificuldade no aprendizado; ao interesse para o aluno e sua importância em relação ao conjunto de conteúdos abordados na série.

Após o desenvolvimento das aulas práticas, ao final do quarto bimestre letivo, foi aplicado outro questionário (Quadro 2).

Quadro 1. Questões abordadas no primeiro questionário aplicado aos alunos do segundo ano do Ensino Médio, noturno, do Colégio João Roberto Moreira, município de Jataí-GO, 2004.

Aluno (a):
Série:Turma:.......................................................................
Turno:

1. Qual é a diferença entre uma mangueira e um pinheiro com relação a proteção das sementes que produzem?

2. O abacateiro é uma angiosperma. Certo ou errado? Justifique.

3. Quais são os vegetais que você utiliza com mais freqüência na sua alimentação? A que grupo eles pertencem?

4. Caule, raiz, sementes e folhas são quatro das partes encontradas numa laranjeira. Entretanto, apenas duas dessas partes são os órgãos que promovem a nutrição dessa planta. Quais são esses órgãos?

5. Quando uma raiz cresce, sua ponta não se desgasta com o atrito com a terra. Por quê?

6. A seiva bruta, formada de água e sais minerais, transforma-se em seiva elaborada nas folhas. Você concorda com essa afirmativa? Por quê?

7. Por que a parte aérea da bananeira não é um caule verdadeiro?

8. A água e os sais minerais absorvidos pela raiz conseguem subir pelo caule e chegar até as folhas. Explique uma das razões que tornam isso possível?

9. Os vegetais não dependem somente das flores para a sua reprodução. Que outros fatores participam desse processo?

10. Por que as sementes precisam de água para germinar?

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Quadro 2. Questões abordadas no segundo questionário aplicado aos alunos do segundo ano do Ensino Médio, noturno, do Colégio João Roberto Moreira, município de Jataí-GO, 2004.

Aluno (a):
Série:Turma:.......................................................................
Turno:

1. A batata-inglesa é extraída do solo e se caracteriza por acumular material nutritivo. Logo, a batata é uma raiz tuberosa, da mesma forma que a batata doce e a cenoura. Você concorda? Por quê?

2. A Folha apresenta três partes principais: limbo, pecíolo e bainha. Qual dessas partes é a mais importante para o vegetal? Por quê?

3. A flor é formada por quatro verticilos florais: cálice, corola, androceu e gineceu. Desses, quais são os que atuam efetivamente na reprodução? Por quê?

4. Não basta que as plantas produzam sementes para se reproduzirem. É necessário também que essas sementes sejam espalhadas. Por quê?

b) a castanheirae) o cacaueiro

5. Das plantas abaixo, a que produz semente mas não forma frutos é: a) o limoeiro d) o pinheiro c) o coqueiro

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