Sobre o conceito de estrutura social

Sobre o conceito de estrutura social

O ponto mais importante para se começar é: um relógio é mais do que a soma das suas peças. Se você tem um relógio à mão ao ler isso, desmonte-o. Reúna todas as peças e ponha-as na mão. Você não tem um relógio, mas apenas um monte de peças. Logo, um relógio não é apenas a soma das suas peças, mas a soma das suas peças mais a maneira como elas são montadas, relacionadas entre si, organizadas. Da mesma forma, a sociedade é mais do que a soma das pessoas que estão nela. Não são apenas as pessoas, mas também a maneira como elas estão relacionadas entre si, organizadas - a estrutura social. Se isso é correto, o que ocorre numa sociedade não pode ser explicado unicamente em termos de indivíduos, mas somente pela compreensão da maneira como eles estão relacionados mutuamente.

Pode-se desenvolver a analogia. Um relógio pode ser subdivido em grupos de peças - por exemplo, as ligadas ao fornecimento de energia; à regulação; à informação e à proteção. Dentro dos grupos maiores de peças estão grupos menores, até que se retorna à peça individual. Alguns sociólogos, usando a analogia orgânica, têm tentado dizer que as sociedades têm sistemas reguladores, sistemas digestivos etc., tal como um corpo. Este uso da analogia é completamente enganador. Não estamos tentando dizer que qualquer grupo específico de peças num relógio, as ligadas à informação, por exemplo (ponteiros, mostrador, etc.), tenha um equivalente na sociedade. Estamos afirmando que, como a ação de cada peça é explicada pela organização do seu grupo de peças, e a ação do seu grupo pela organização do todo, da estrutura, também na sociedade podemos explicar parcialmente a ação de cada indivíduo pela organização dos grupos aos quais ele pertence e a ação dos grupos parcialmente, pela organização da sociedade como um todo, a estrutura social. Observe aqui as modificações na analogia. Em primeiro lugar, a afirmação de uma explicação total em termos de estrutura seria um exemplo extremo do determinismo tosco, bem como imperialismo sociológico - negando às outras Ciências Sociais, especialmente à Psicologia, o direito de um bocado de explicação. Em segundo, o mesmo indivíduo, ao contrário de uma peça de relógio, pertence a vários grupos diferentes, de modo que as coisas não podem ser tão arrumadas como num relógio.

Trabalhemos um pouco mais com a analogia do relógio. As peças e grupos de peças num relógio têm uma ação estreitamente definida na sua estrutura. O relógio é desenhado para um fim específico - dizer as horas. Pode haver muito pouca variação na ação das peças do nosso relógio, já que, se elas não fizerem exatamente aquilo para o que foram criadas, estarão defeituosas e dizemos que o relógio não está certo. Talvez a peça seja defeituosa - mal feita. Alternativamente, o desenho do relógio pode ser defeituoso, de modo que aplica tensão excessiva a um grupo de peças. Neste ponto, achamos que a analogia do relógio se torna desorientadora.

Ao contrário do relógio, não existe nenhum criador externo de sociedade nem qualquer finalidade externamente definida para ela. As sociedades são criadas pelas peças (pessoas) da estrutura, elas próprias interagindo. Como não existe criador externo e nenhuma finalidade externa, é bem possível que as opiniões dos grupos de pessoas dentro da estrutura possam estar em conflito quanto às finalidades que a sociedade tem, ou deveria ter, sem que possamos dizer que haja algo de errado com as pessoas ou com o “desenho”. Também, embora seja teoricamente tão possível desenhar sociedades como relógios, e várias pessoas tenham apresentado diagramas de como acham que a sociedade deveria ser desenhada (Auguste Comte, que batizou a Sociologia, era exímio nisso), de modo geral, ninguém desenhou as sociedades em que o homem tem vivido até agora. Como Topsy, elas apenas surgiram. Temos de descobrir como e por quê.

Logo, ao contrário das peças do relógio, desenhadas para uma finalidade, as pessoas, grupos e instituições podem não “adaptar-se”. Ao contrário do que acontece num relógio, os conflitos de interesse entre pessoas e grupos podem ser de uma estrutura social de um modo como jamais poderiam sê-lo num relógio. Na verdade, uma das principais maneiras de se compreender como as sociedades mudam pode ser através do exame dos conflitos de interesse entre os diferentes grupos, oriundos das suas diferentes posições numa estrutura social, e os benefícios diferenciais que recebem dessas posições.

Afirmamos que as sociedades, ao contrário dos relógios, não têm finalidade externa. Mas grande número de sociólogos - que aqui chamamos de “funcionalistas”- discorda disso. Eles tentam explicar a sociedade atribuindo-lhe um propósito. Particularmente os sociólogos que têm estudado as sociedades primitivas observam que, em muitos casos, as coisas realmente pareciam ser análogas a um relógio - as pessoas e os grupos pareciam ajustar-se tal como as peças de um relógio. A fim de dar sentido ao que viam, desenvolveram os seguintes tipos de explicação, que também estão subjacentes na maneira como muitos sociólogos hoje encaram as sociedades. Alguns afirmavam que a finalidade da sociedade era a manutenção da ordem social, e da estabilidade social, e que a função das partes de uma sociedade e a maneira como eram organizadas, a estrutura social, era manter esta ordem e estabilidade. Outro argumento era o de que a finalidade da sociedade é a satisfação de certas necessidades biológicas dos seres humanos. Outra opinião é um desenvolvimento mais sofisticado do primeiro, baseada na idéia de que a manutenção da ordem ou equilíbrio (outra analogia, tomada de empréstimo da mecânica) é alcançada principalmente pela existência de valores comuns, ou normas, compartilhados pela vasta maioria das pessoas na sociedade. Se se aceitar a finalidade principal, a manutenção da ordem, então é possível levar a analogia do relógio mais longe, por exemplo, para sugerir que algumas partes da sociedade podem ser doentes, ou patológicas, por que não se adaptam. A falha básica em todas essas opiniões é que é um erro completo atribuirse qualquer tipo de finalidade à sociedade, que, não é uma coisa como um relógio, mas apenas um termo coletivo para uma nação de pessoas, suas possessões, organização e comportamento. Somente as pessoas podem ter finalidades, e grupos de pessoas em situações comuns podem ter finalidades comuns. Quaisquer que possam ser estas, e como elas estão relacionadas com a organização da sociedade, é uma questão a investigar e não pode ser previamente decidida em bases teóricas.

Os sociólogos, entre os quais nos incluímos, que rejeitam o funcionalismo em todas as suas formas como um meio de se compreender a sociedade, afirmam que por a sociedade não ser como um relógio, ou como um corpo, nas maneiras críticas acima examinadas, é necessário analisar os interesses e finalidades dos grupos de pessoas numa sociedade - em outras palavras, estudar a estrutura social sem atribuir às sociedades as características de uma pessoa. Porque quase todos esses estudos mostram que as estruturas sociais reais se desenvolveram de tal maneira que a estrutura beneficia alguns grupos à custa de outros, existe um conflito potencial entre os grupos nas estruturas sociais, oriundo da própria estrutura.

A analogia do relógio nos permitiu estabelecer vários fatos sobre a importância da estrutura como um meio de explicação em Sociologia, sobre o esclarecimento da parte em termos da organização do todo, e para diferenciar entre os sociólogos que atribuem alguma finalidade ao todo, que dão uma função a cada uma das partes, e os que não fazem isso. Outro argumento, de particular importância, deve ser introduzido aqui. Se nosso ponto de referência para a análise das sociedades é alguma finalidade existente, que está sempre ali, a história de como as coisas vieram a ser como são é separada da sua explicação e deixa de ser de interesse fundamental. Falar de estrutura social é descrever como a organização da sociedade “mantém” a ordem. Por outro lado, se não existe nenhum ponto externo de referência, a única maneira pela qual podemos compreender as relações de grupos é examinando a maneira como eles interagem com o correr do tempo - em sua prática histórica. Examinando-se isso - como alguns grupos se beneficiam e outros reagem, por exemplo - podemos determinar os princípios pelos quais a sociedade é organizada, sua estrutura social e, daí, as pressões para a mudança e resistência a ela. Logo, na sociologia funcionalista, o estudo da história e da mudança está depreciado. Na sociologia do conflito estrutural ele é essencial. _ De: COULSON, M.A. e RIDDELL D.S. “Introdução Crítica à Sociologia”. Rio de Janeiro, Zahar, 1975.

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